DO CUIDADO QUE SE DEVE TER COM CERTAS PALAVRAS
Há muito tempo, numa pequena comunidade interiorana do Estado de Sergipe, uma senhora de meia idade, trêmula e ansiosa, aguardava, desde cedo, na entrada da casa em que funcionava o único cartório local e na qual o juiz de direito exercia os seus afazeres jurisdicionais, alguém que lhe explicasse o conteúdo do envelope que lhe fora entregue por um carteiro e que segurava forte e nervosamente com ambas as mãos.
Acostumado com tais situações, o experiente magistrado percebeu logo ao chegar ao seu local de trabalho o estado emocional da referida senhora, e dela se aproximou com um largo sorriso no rosto. Após cumprimentá-la cordialmente, o douto juiz se lhe apresentou com tal e perguntou-lhe em que poderia servi-la.
Sem pestanejar, ela lhe entregou o já amarfanhado envelope, revelando-lhe, de logo, sua enorme preocupação em receber, pela primeira vez na vida, um documento do Poder Judiciário convocando-a para comparecer àquele local, naquele dia e naquela hora.
Sereno, o juiz conduziu-a até a sala de despachos, abriu o envelope e, após ler seu conteúdo, esboçou um novo sorriso.
Não se preocupe, minha senhora – disse-lhe o magistrado, trata-se apenas de uma intimação para que dê sua opinião sobre uma desavença que houve entre duas pessoas que moram em sua rua, tendo em vista que a senhora foi arrolada por uma delas como testemunha.
O sorriso do magistrado foi interrompido bruscamente por uma sonora bofetada desferida pela nervosa interlocutora, que aos que aos brados gritou:
“O Senhor me respeite, doutor. Sou uma mulher de família decente e casada. Arrolada é sua mãe!”

