sábado, 25 de maio de 2013

MEMÓRIAS MUSICAIS CIRCENSES

Nasci em Aracaju, na Rua Japaratuba, no dia sete de novembro de 1946.  

Pouco tempo depois, meus pais, Elísio e Cecília Araújo, foram morar em Itabaiana, onde vivi os tempos áureos da minha infância e da minha juventude.

Amo, portanto, de forma intensa, as duas cidades: Aracaju, por ter me servido de berço e acolhido de volta com tanto carinho, em 1991; e Itabaiana, por ter me ensinado prazerosamente os primeiros passos e as primeiras notas musicais.

Nos anos 50 e 60, do século passado, o circo era uma das grandes diversões populares, juntamente com o cinema, as feiras natalinas e os bailes em clubes e associações privadas. 

Na cidade serrana, o Circo Nerino e o Circo Zé Bezerra eram ansiosamente aguardados e alegremente festejados pela população interiorana. Aquele, mais famoso, demorava muito a reaparecer; este, no entanto, categorizado como circo mambembe, sempre retornava às plagas itabaianenses, para felicidade de seus assíduos espectadores.

Apesar de ser conceituada como uma companhia de artes de segunda divisão, o Circo Zé Bezerra promovia espetáculos multicoloridos que agradavam em cheio ao público, sobretudo pela dinâmica empregada pelo extraordinário astro central que lhe emprestava o nome.

Zé Bezerra era tudo dentro do circo: dono, diretor, administrador, tesoureiro, produtor, publicitário, ator (sua interpretação de Coração de Luto comovia a platéia, fazendo-a chorar), cantor, palhaço, mágico, equilibrista, o que fosse preciso para agradar aos seus fiéis admiradores... Além disso, era o pai de Iracema, uma bela cantora (bela, em sentido lato) e sogro do violonista Vivaldo.

Os espetáculos não se limitavam às atividades circenses mas ultrapassavam suas fronteiras por envolver peças teatrais, danças típicas e shows musicais.

À época, os ritmos latinos (mambo, rumba, cha-cha-cha) esquentavam as noites dançantes. De antenas sempre ligadas - ou antenado, como diriam os jovens contemporâneos -, Zé Bezerra inseria em seus espetáculos noturnos um quadro onde a famosa rumbeira Luna Lai ondulava seu corpo seminu e roliço em contornos sensuais, fazendo a platéia masculina delirar.

E é aí que eu entro na história, não como um dos febris delirantes, é bom deixar bem claro..., mas como um dos músicos do conjunto circense formado basicamente por mim, na guitarra, Djalma (hoje seresteiro), no saxofone alto, Vivaldo, ao violão, e Edézio (filho de Nélson Tocha) na bateria.

A rumbeira saracoteava seus gordos quadris e, de quando em quando, dava-nos umbigadas que faziam o respeitável público sorrir e aplaudir entusiasticamente.

O convívio circunstancial com o mundo circense contribuiria - e muito - para a ulterior formação do conjunto "Os Nômades", tendo em vista que foi nele que desenvolvi, como solista, a técnica e a velocidade exigidas pelo frenético ritmo cubano, sem as quais, hoje bem o sei, não teria conseguido solar com perfeição a música O Milionário, que me consagrou como guitarrista profissional.    

Lembranças, doces lembranças de um tempo que não volta mais...



   

quarta-feira, 22 de maio de 2013

UM ATO FILIAL DE LOUVOR



Pai Nosso, que estás nos Céus,

Quando admiro a beleza, a harmonia e o equilíbrio dos mecanismos que regem o Universo, sinto a agradável obrigação de parabenizar seu Autor, dizendo-lhe:

Santificado seja o Vosso nome! 

E iluminado pelas luzes energéticas da Criação, vejo-me impulsionado por uma irresistível vontade de retornar ao plano espiritual. Mas sabendo que ainda não me desmaterializei a ponto de merecer o regresso almejado, lembro-me mais uma vez de Jesus e digo:

Venha a nós o Vosso Reino!   

Minha resignação, contudo, em nada afasta o propósito de empreender a viagem de volta. O que Vos devo pedir então? Permanecer mais algum tempo neste sofrido mundo de provas e expiações ou volver ao mundo primitivo? A problemática, como sempre, tem sua resolução nas sábias lições professadas por Cristo, nosso Irmão-Maior, Mestre e Amigo Leal:

Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como nos Céu.

Consciente de que, dada a minha inferioridade, não disponho de faculdades para compreender a natureza íntima das coisas, deixo que as forças instintivas emerjam e, feliz,  percebo que elas me intuem a Vos pedir as energias vitais indispensáveis aos meus corpos espiritual e material. E, seguindo os passos do Nazareno, Vos peço        

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.  

Pai amado e misericordioso, as luminescências do conhecimento já me despertaram no sentido de reformar meus padrões mentais, mediante o semear exclusivo de pensamentos positivos cujo poder detergencial saneará as crostas áuricas formadas pelos pensamentos negativos prolongados ou reiterados, restaurando meu equilíbrio emocional, minha harmonia orgânica e meu entusiamo pela vida, onde quer que eu esteja, pois sempre estarei na escola apropriada ao meu aprendizado. Por assim crer, Vos peço agora:

Perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores.

Pai Querido, não me sinto suficientemente seguro para resistir aos reclamos sinuosos da matéria, aos sofismas dos conselhos pérfidos, ao domínio atávico das más inclinações que me trouxeram até este mundo tão sofrido. Graças a Jesus, no entanto, quando a tristeza começar a rondar minha tela mental, prenunciando novos tropeços e fracassos existenciais, expulsá-la-ei de minhas cogitações com as rogativas insculpidas no epílogo do Pai Nosso:

Não nos deixes entregues à tentação, mas livrai-nos do mal.

Que assim seja, 

SEMPRE!    




quinta-feira, 16 de maio de 2013

AS FLORES E OS ESPINHOS DA SOLIDARIEDADE



Em 1851, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) publicou a famosa parábola dos porcos-espinhos.

Como é sabido, as fábulas são construções filosóficas essencialmente altruístas, pois tanto nos deixam inteiramente livres para lhes dar roupagens  vernaculares alternativas, quanto nos permitem assimilar os conceitos poético-morais nelas engastados de acordo com a nossa capacidade intelectual.   

Valendo-nos dessa fraterna franquia, apresentamos nossa leitura e conclusão espiritualistas da bela concepção de Schopenhauer. 

Durante a era glacial, o globo terrestre ficou recoberto por densas camadas de gelo. O frio intenso, resultante do congelamento da crosta planetária, ceifava a vida de milhões de animais que, indefesos, não conseguiam resistir às condições climáticas adversas e morriam enregelados.

Nesse cenário catastrófico, o inspirado líder de uma uma grande manada de porcos-espinhos idealizou instintivamente uma forma empírica de salvaguardar a existência dos membros de sua espécie, evitando-lhes a extinção prematura ameaçada pelo cataclismo geológico.

Ao pô-la em prática, sugeriu a seus pares que se unissem e formassem grupos solidários, para que cada qual se beneficiasse do calor irradiado pelos corpos dos companheiros circunvizinhos.

Aprovada a ideia revolucionária, os porcos-espinhos reuniram-se, formando grandes círculos.

Como havia previsto seu líder, o aquecimento mútuo conferiu-lhes resistência e assegurou-lhes a sobrevida ao inverno tenebroso, à exceção de alguns animais que ficaram nas extremidades exteriores.   

No entanto, por se aproximarem em demasia, seus espinhos feriam os animais mais próximos - justamente aqueles que mais lhes aqueciam e doavam energias vitais à tão desejada sobrevida -, sendo a recíproca verdadeira.  

Feridos e mal-humorados, afastaram-se uns dos outros e, como é obvio deduzir-se, voltaram a morrer em larga escala.     

Como a dor é quem ensina a gemer, os porcos sobreviventes aproximaram-se novamente, agora com as devidas cautelas, observando rigorosamente a distância mínima capaz de lhes preservar a vida e evitar novas dilacerações.

Descoberto o espaço ótimo, conseguiram vencer as dificuldades impostas pelo meio-ambiente, com o mínimo possível de sequelas.

Dessa maravilhosa metáfora colho o seguinte conceito moral:

Em sendo filhos de Deus, somos todos irmãos, temos todos a mesma origem, a mesma natureza e o mesmo destino: ser felizes, no reino dos Céus!

A solidariedade para com o nosso próximo impõe-se-nos, portanto, como uma obrigação personalíssima contínua e inalienável, cabendo-nos, para bem exercitá-la, aceitar cada ser humano tal qual se nos mostra, com suas virtudes e defeitos, jamais pretendendo esculturá-los para que assumam as formas que julgamos adequadas.

Contudo, não devemos ser íntimos.

Tal como revela o esboço psicológico da fábula, a aproximação excessiva dos nossos semelhantes - a intimidade -, far-nos-á arranhá-los com os espinhos das nossas imperfeições e, na viagem de retorno, ferir-nos-á com os acúleos de suas deformidades morais.

Embora tênue, a linha separativa entre solidariedade e intimidade existe e precisa ser respeitada, a fim de não nos transformarmos em cofres ou  repositórios das mazelas alheias.

À medida que assumimos o papel de confidentes, de amigos íntimos, represamos as más energias emitidas pelos nossos semelhantes e nos desequilibramos emocionalmente, desarmonizamos nosso organismo, enfraquecemos nosso sistema imunológico e adoecemos nossos corpos.

Como nos ensina o Mestre Jesus, "devemos amar ao nosso próximo como a nós mesmos". 

Nem mais, nem menos! 

terça-feira, 7 de maio de 2013

A FORÇA INVENCÍVEL DO ENTUSIASMO




A palavra Entusiasmo é formada pela junção dos vocábulos gregos en, Theos e Asm, que significam dentro, Deus e ação, respectivamente. 

Literalmente, pois, entusiamo significa Deus dentro de nós em ação, ou, de forma mais simples, ter Deus em si.


Importa relembrar que os gregos eram politeístas e mitológicos, ou seja, criam na multiplicidade de deuses e os simbolizavam em figuras híbridas, metade animal, metade homem. Imersos nessa concepção teórico-conceitual, eles enxergavam a exaltação típica da pessoa entusiasmada como um sinal evidente de que ela se encontrava sob inspiração divina, de que ela estava possuída por um de seus deuses, dispondo, por isso, de energias poderosas capazes de transformar a realidade circunstante e realizar proezas inimagináveis, necessariamente boas e positivas, posto que inspiradas pela divindade que a ela estava imantada.
No mundo hodierno, o entusiasmo é tido como um estado de espírito otimista, de efusivo arrebatamento e grande alegria.
Em leitura alternativa, ele, o entusiasmo, fulgura como um sólido alicerce motivacional que encoraja seu beneficiário a enfrentar as dificuldades e os desafios impostos pelo cotidiano da jornada evolucional terrena, não o deixando quedar-se diante dos obstáculos que se lhe interpõem e transmitindo confiança àqueles que estão ao seu redor.

              O entusiasmo pode ser endógeno ou exógeno.


              O primeiro tipo, revela-o o próprio nome, tem geratrizes internas, ou seja, é produzido dentro do e pelo indivíduo, necessitando, porém, de contínuas injeções de ânimo, dadas as constantes alterações de humor que caracterizam o ser humano.


        Tais estímulos preservadores podem e devem ser autoinoculados por intermédio da fixação diuturna de metas existenciais desafiadoras, sempre correlacionadas ao objetivo superior de reforma íntima para melhor.


              Nas palavras do Mestre Jesus: "Faz, que o céu te ajudará".
Como a própria nomenclatura indica, o entusiamo exógeno depende de estímulos externos, comumente chamados de fatores motivacionais ou simplesmente de motivação. 

A inevitável subordinação aos influxos energéticos exteriores é agravada ou minorada pela sensibilidade de cada um.
Por assim ser, os especialistas nos aconselham a tentar motivar as pessoas mediante satisfação das necessidades localizadas na base da pirâmide idealizada pelo psicólogo americano Abraham Maslow (1908-1970), quais sejam: necessidades fisiológicas, de segurança, amor e relacionamento.
 E, para tanto, uma única lei precisa ser observada, segundo nos ensina Jesus: Amai a Deus sobre todas as coisas e o vosso próximo como a vós mesmos; aí estão a lei toda e os profetas”.[1]



[1] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 112.ª edição, Cap. I, Rio de Janeiro, FEB, 1996, pág. 55.

A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS INTRODUÇÃO As parábolas de Jesus entesouram ensinamentos de inestimável valia para o nosso desenvolvimen...