Nasci em Aracaju, na Rua Japaratuba, no dia sete de novembro de 1946.
Pouco tempo depois, meus pais, Elísio e Cecília Araújo, foram morar em Itabaiana, onde vivi os tempos áureos da minha infância e da minha juventude.
Amo, portanto, de forma intensa, as duas cidades: Aracaju, por ter me servido de berço e acolhido de volta com tanto carinho, em 1991; e Itabaiana, por ter me ensinado prazerosamente os primeiros passos e as primeiras notas musicais.
Nos anos 50 e 60, do século passado, o circo era uma das grandes diversões populares, juntamente com o cinema, as feiras natalinas e os bailes em clubes e associações privadas.
Na cidade serrana, o Circo Nerino e o Circo Zé Bezerra eram ansiosamente aguardados e alegremente festejados pela população interiorana. Aquele, mais famoso, demorava muito a reaparecer; este, no entanto, categorizado como circo mambembe, sempre retornava às plagas itabaianenses, para felicidade de seus assíduos espectadores.
Apesar de ser conceituada como uma companhia de artes de segunda divisão, o Circo Zé Bezerra promovia espetáculos multicoloridos que agradavam em cheio ao público, sobretudo pela dinâmica empregada pelo extraordinário astro central que lhe emprestava o nome.
Zé Bezerra era tudo dentro do circo: dono, diretor, administrador, tesoureiro, produtor, publicitário, ator (sua interpretação de Coração de Luto comovia a platéia, fazendo-a chorar), cantor, palhaço, mágico, equilibrista, o que fosse preciso para agradar aos seus fiéis admiradores... Além disso, era o pai de Iracema, uma bela cantora (bela, em sentido lato) e sogro do violonista Vivaldo.
Os espetáculos não se limitavam às atividades circenses mas ultrapassavam suas fronteiras por envolver peças teatrais, danças típicas e shows musicais.
À época, os ritmos latinos (mambo, rumba, cha-cha-cha) esquentavam as noites dançantes. De antenas sempre ligadas - ou antenado, como diriam os jovens contemporâneos -, Zé Bezerra inseria em seus espetáculos noturnos um quadro onde a famosa rumbeira Luna Lai ondulava seu corpo seminu e roliço em contornos sensuais, fazendo a platéia masculina delirar.
E é aí que eu entro na história, não como um dos febris delirantes, é bom deixar bem claro..., mas como um dos músicos do conjunto circense formado basicamente por mim, na guitarra, Djalma (hoje seresteiro), no saxofone alto, Vivaldo, ao violão, e Edézio (filho de Nélson Tocha) na bateria.
A rumbeira saracoteava seus gordos quadris e, de quando em quando, dava-nos umbigadas que faziam o respeitável público sorrir e aplaudir entusiasticamente.
O convívio circunstancial com o mundo circense contribuiria - e muito - para a ulterior formação do conjunto "Os Nômades", tendo em vista que foi nele que desenvolvi, como solista, a técnica e a velocidade exigidas pelo frenético ritmo cubano, sem as quais, hoje bem o sei, não teria conseguido solar com perfeição a música O Milionário, que me consagrou como guitarrista profissional.
Lembranças, doces lembranças de um tempo que não volta mais...

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