A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS
INTRODUÇÃO
As parábolas de Jesus entesouram ensinamentos de
inestimável valia para o nosso desenvolvimento intelecto-moral, porquanto difundem
conhecimentos psicoterapêuticos que beneficiam amplamente a todos que mergulham
em suas fontes abençoadas de água-viva, como certo dia fez uma samaritana junto
ao Poço de Jacó.
Contudo, para colhermos seus frutos precisamos
entender, antes de tudo, que as parábolas são construções literárias simbólicas no ventre das quais dormitam máximas morais plenas de sabedoria, aguardando estímulos para despertarem e iluminarem nosso caminho.
Para facilitar a exegese do ensino moral de Jesus,
utilizaremos como suporte os cânones da Psicologia Transpessoal e da renomada Série Psicológica de Joanna de Ângelis, cuja
visão comum do homem integral — Alma, perispírito e corpo — auxilia-nos
a interpretar os conceitos engastados no Evangelho de Jesus, e, por mérito,
gozarmos dos benefícios defluentes do seu manancial inexaurível de luzes.
A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS
Mais conhecida entre nós como A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO, ela é narrada por Lucas no Capítulo 15, versículos
11 a 32, de sua obra evangélica, verbis:
—“E disse
Jesus: — Um certo homem tinha dois filhos.
“E o mais
moço deles disse ao pai: — Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence.
“E ele
repartiu por eles a fazenda.
“E, poucos
dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua
e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente.
“E havendo
ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e ele começou a padecer
necessidades.
“E foi e
chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos
a apascentar porcos.
“E desejava
encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
“E, caindo em
si, ele disse: — Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu
aqui pereço de fome!
“Levantar-me-ei,
e irei ter como meu pai, e dir-lhe-ei: — Pai, pequei contra o céu e perante ti.
Já não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus
trabalhadores.
“E,
levantando-se, foi para seu pai e, quando ainda estava longe, seu pai o viu e,
cheio de íntima compaixão, correu em sua direção e o abraçou.
“O filho
então lhe disse: — Pai, pequei contra o
céu e perante ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho.
“Mas o pai
disse aos seus servos: — Depressa, trazei a melhor roupa e vesti-o. Ponde-lhe
um anel no dedo e sandálias em seus pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o;
e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; estava
perdido e foi achado.
“E começaram
a festejar.
“Enquanto
isso, o filho mais velho que estava no campo se aproximou da casa, ouviu a
música e as danças. E chamando um dos servos perguntou-lhe o que estava
acontecendo.
“Este lhe
respondeu: — Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o bezerro cevado, porque o
recebeu de volta são e salvo.
“O filho mais
velho encheu-se de ira, e não quis entrar na casa.
“Então seu
pai saiu e insistiu com ele. Mas ele respondeu ao seu pai:
— “Eis que te
sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste
nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos. Mas quando volta para casa
esse teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, matas o
bezerro cevado para ele!
"Disse-lhe
o pai: — Filho, tu sempre estás comigo;
e todas as minhas coisas são tuas.
"Mas era justo alegrarmo-nos e
regozijarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, tinha se perdido
e achou-se."
Esta parábola
traz em seu âmago as mais candentes e profundas lições sobre os preceitos
morais que devem presidir a conduta humana.
Lamentavelmente,
sua interpretação de há muito vem sendo feita de forma intencionalmente distorcida, em indisfarçáveis e reiteradas tentativas de acomodar dogmas
religiosos absurdos e insustentáveis. Com esse censurável propósito, aborda-se somente a história do filho pródigo.
Essa
premeditada distorção temática faz com que a maioria das pessoas creia que
para obter o perdão de Deus sobre os seus erros basta pura e simplesmente
arrependerem-se de tê-los cometido. Muitos líderes religiosos disso se
aproveitam, de forma ladina, para influenciar seus fiéis a demonstrarem seu
arrependimento mediante doações pecuniárias que, de ordinário, recheiam seus
bolsos ávidos e gananciosos.
Diante dessa triste
realidade, interpretaremos as sublimes lições de Jesus de forma modularizada,
versículo a versículo, com base na Psicologia Transpessoal e na consagrada Série
Psicológica de Joanna de Ângelis, sempre sob as luzes dos nossos bondosos e
pacientes Instrutores Espirituais.
A PARÁBOLA
DOS DOIS FILHOS aborda a questão vital do autoencontro, isto é, do
encontro da criatura mortal com sua Essência Divina (Alma), e, por natural expansão,
com o Pai-Criador.
EXEGESE DA PARÁBOLA, VERSÍCULO A VERSÍCULO
“E disse Jesus: — “Um certo homem tinha dois
filhos.”
E o mais moço deles disse: — “Pai, dá-me a
parte da fazenda que me pertence”.
Neste contexto
metafórico um certo homem simboliza Deus;
o filho mais moço, o ser
inexperiente, pouco vivido, de reduzida capacidade de discernimento; e a parte da fazenda que ele reclama
representa as dádivas da Vida que Deus concede aos seus filhos para que
evoluam, cuja eficácia depende do uso que a elas seja dado pelo livre-arbítrio
de cada um.
Em cada jornada,
o corpo físico é uma “fazenda” que recebemos para administrar
adequadamente. Além disso, somos usufrutuários do ar que respirarmos,
da luz do sol que nos aquece, da água que sacia nossa sede, dos alimentos que
matam nossa fome etc., de tudo, enfim, que necessitamos para evoluir durante a nova
experiência reencarnatória.
“E ele repartiu por eles a fazenda.”
A justiça e a
equanimidade divinas ficam bem claras neste versículo, pois apesar de somente o
filho mais novo ter pedido a parte da fazenda
que lhe cabia, o Pai a repartiu entre seus dois herdeiros
necessários. O que Jesus está querendo dizer é que Deus é sempre justo e
equânime.
Quando
renascemos em situações precárias, tais como: a carência de afeto materno e/ou
paterno; a falta de saúde; a indisponibilidade de bens materiais etc., é para
aprendermos, pela dor, a valorizar os bens existenciais que detínhamos e desperdiçamos
irresponsavelmente.
A carência de
hoje é sempre consequencial. Assim, se alguma coisa falta em nossa vida não é
porque Deus quer, como costumam dizer pessoas que não creem na reencarnação ou estão mal-intencionadas.
Com efeito, se
nascemos em precárias condições é porque em algum momento da nossa vida
espiritual abusamos dos bens da fazenda (símbolo de todos os bens
divinos), usando-os de forma egoísta, ou subtraímos os haveres de outras
pessoas e agora, como é de lei, aquilo que usamos mal ou tiramos dos outros
retorna para nós sob a forma de carência.
Por
conseguinte, a diferença de recursos que existe entre as criaturas é, de modo
geral, o resultado justo e meritório do que cada uma delas fez da parte da fazenda
que recebeu do Pai.
“E, poucos dias depois, o filho mais novo,
ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua
fazenda, vivendo dissolutamente.”
Com admirável habilidade
expressional, Jesus metaforiza que o filho mais novo ajuntou tudo e partiu para
terra longínqua, revelando, de tal modo, em linguagem figurada, que ele
se afastou da Casa do Pai, isto é, abandonou seus ideais de
espiritualidade e religiosidade, tendo em vista que a Casa do Pai
representa a nossa Essência Divina, e estar em casa significa estar em comunhão
conosco mesmos e com o Pai nosso que está nos céus.
Neste
versículo, o Mestre Divino mais uma vez enfatiza a autonomia concedida pelo Criador
aos Seus filhos amados para que exercitem livremente a faculdade do livre-arbítrio.
Notemos, com
especial atenção, que o Pai não tenta, em momento algum, demover seu
filho do desejo insano de partir para terra longínqua, afastando-se do
seu convívio amoroso, embora sabendo de antemão que o filho caçula estava
cometendo um grave erro.
Mais uma joia
cintila no ventre desse tesouro parabólico: o egoísmo do filho ingrato e
irresponsável que ajunta tudo e, sem se importar com as dores e sofrimentos que causaria ao seu genitor, parte para bem longe em busca dos pseudoprazeres da vida
dissoluta, desperdiçando rapidamente todo o acervo hereditário.
O elevado valor
desta lição está na verdade incontestável de que é o materialismo que nos
distancia da nossa espiritualidade (nossa Alma) e, em concomitância, da nossa
religiosidade (Deus).
Literalmente, a palavra egoísmo significa culto ao ego, ou seja, devoção à camada de ignorância que
ainda permeia nosso Self (Alma), em virtude
do exercício desamoroso do livre-arbítrio.
São os pensamentos, palavras e atitudes desamorosos, rebeldes e orgulhosos que nos lançam nos subterrâneos trevosos do desalento e
da dor. E o que é bem pior: não raro, desperdiçamos encarnações inteiras
vivendo por puro egoísmo, buscando somente a satisfação dos prazeres egoicos,
sensuais e efêmeros, apenas para gozar a vida, tudo fazendo em favor do
nosso insaciável bem-estar pessoal, mesmo que em detrimento dos outros, como se
essa fosse a finalidade da nossa existência.
Atentemos que é
o movimento de rebeldia que induz a criatura humana a se afastar da sua
condição natural de aprendiz da Vida, ao lhe ofuscar o dever consciencial de
evoluir e entrevar o sentimento de profunda gratidão a Deus pelas oportunidades
infinitas de iluminação que lhe concede, incessante e infinitamente.
Quando o ser
humano escolhe o atalho piçarrento da rebeldia, ao invés de caminhar pela
estrada asfaltada da mansidão trilhada por Jesus, assume a obrigação
indelegável de colher os frutos amargos e espinhosos produzidos pelo seus atos,
dada a cogência e automaticidade da Lei de Causa e Efeito, também conhecida
como Lei de Ação e Reação ou, ainda, como Lei do Retorno.
Por isso,
quando o filho mais novo parte para uma terra longínqua para cultivar o
materialismo, ajuntando tudo, de maneira egoísta, para viver dissolutamente, logo
desperdiça todo a sua quota hereditária e acaba perdendo a saúde ao dilapidar o
tesouro moral “que a traça e a ferrugem não
consomem, nem os ladrões roubam” [Mateus, 6:19-21].
“E havendo ele gastado tudo, houve naquela
terra uma grande fome, e ele começou a padecer necessidades.”
Aqui, Jesus
aborda a questão relativa à responsabilidade inescusável que temos pelos nossos
pensamentos, palavras e atitudes, cujos frutos saudáveis ou insalubres, macios
ou espinhosos seremos obrigados a colher, demonstrando-nos, com nívea
elegância didática, que quando nos afastamos do Amor Divino obstruímos o
ingresso da energia vital que nos fortalece, e, inexoravelmente, findamos
desidratados.
A grande fome
não representa, portanto, a fome do pão de que carece o corpo biológico para
sobreviver, mas a fome de amor do Espírito que se afastou da única Fonte
provedora: Deus, o Pai-Criador!
Infelizmente,
isso acontece com a maioria dos seres humanos que, iludidos pelos prazeres
egoicos, esbanjam sua energia vital com futilidades, em prejuízo do prazer
essencial proporcionado pelo exercício do amor incondicional sugerido e exemplificado por
Jesus, debilitando-se energeticamente e provocando a eclosão de inúmeras
doenças nos corpos perispiritual e físico.
Nos dias que
correm um número elevado de pessoas astuciosas vem se valendo da posição de comando ou de influência que ocupam no orbe político-social para usurpar recursos públicos, devastar a natureza e cometer uma série de
atos imorais, ilegais e indecorosos cuja futura colheita dar-se-á fatalmente na
forma de degenerações mentais, transtornos psicóticos,
constrições intelectuais etc.
Outro grupo,
também numeroso, abusa dos recursos materiais de que dispõe sem levar em conta
sua finitude, colhendo, mais tarde, os frutos amargos da estupidez
representados pela carência de recursos essenciais, para que, pela dor, aprendam
a valorizá-los.
Ao nos
distanciarmos do Essencial para gozarmos dos prazeres supérfluos sugeridos pelo
ego, desenergizamo-nos e sentimos uma grande fome, ou seja, a carência do Amor
Divino.
O abuso de hoje
é a fome de amanhã; se hoje abusamos da saúde do corpo físico, amanhã não mais
a teremos; se abusamos dos recursos financeiros, deles sentiremos falta no
futuro, e assim por diante. Nada mais justo, não acham?
Na parábola, a
história é bem linear: o filho caçula parte para bem longe, desperdiça seus
bens patrimoniais vivendo dissolutamente e entra em carência, uma coisa atrás
da outra, tudo sucedendo numa única existência.
Na vida real,
no entanto, as coisas não costumam acontecer dessa forma. É mais comum
passarmos existências inteiras indo para terras longínquas, nas quais desperdiçamos
as dádivas divinas e, exangues, padecemos necessidades.
“E foi e chegou-se a um dos cidadãos daquela
terra, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos.”
Para bem assimilarmos
os ensinamentos simbolizados por Jesus em suas parábolas terapêuticas,
precisamos contextualizá-los. Neste
versículo, por exemplo, há algo de muito sutil que somente pode ser compreendido
se dirigirmos nossas lentes prospectivas para a época em que Jesus o formulou,
a fim de nos inteirarmos da realidade cultural do povo que O ouviu.
Os hebreus não
comem carne de porco, pois, para eles, o porco é um animal imundo, proibido por
Moisés após a fuga do Egito.
Realmente, Moisés proibiu seu povo de se alimentar com carne de porco, mas o fez porque naquela época a criação de porcos era feita de forma muito rudimentar, sem que fossem observados os mínimos requisitos de higiene, razão pela qual os porcos transmitiam muitas doenças. Ao instituir essa proibição, Moisés, como hábil legislador, atribui-lhe origem divina.
Realmente, Moisés proibiu seu povo de se alimentar com carne de porco, mas o fez porque naquela época a criação de porcos era feita de forma muito rudimentar, sem que fossem observados os mínimos requisitos de higiene, razão pela qual os porcos transmitiam muitas doenças. Ao instituir essa proibição, Moisés, como hábil legislador, atribui-lhe origem divina.
"O que aconteceu
com o filho mais novo?" Hebreu, ele foi para uma terra longínqua onde a
população consumia normalmente carne de porco, e, privado de recursos, viu-se
obrigado a desenvolver o mais abjeto de todos os trabalhos para o seu povo:
apascentar porcos!
Percebamos como Jesus, com requintada maestria, simboliza o início da derrocada do ser ingrato
na obrigação de fazer aquilo que lhe era mais repugnante: cuidar de porcos.
“E desejava encher o seu estômago com as
bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.”
Aqui, o Mestre
Divino nos alerta sobre a imensa carência a que fatalmente chegaremos se
insistirmos no mau uso do livre-arbítrio.
Jesus se
refere, simbolicamente, ao auge da carência: embora o filho mais novo estivesse
realizando a mais abjeta das atividades para um hebreu, nem a comida dos porcos
que apascentava lhe era oferecida.
Em sentido
literal esse versículo não faz nenhum sentido, pois nenhum empregador deixa de
alimentar seus operários, porquanto, enfraquecidos, eles não lhe renderiam o
proveito econômico desejado.
A fome a que
Jesus se refere não é, portanto, de alimentos materiais, mas a fome espiritual,
a fome de amor. Ele usou o fome da carne como símbolo para exprimir que ninguém
pode saciar a fome alheia: somente a própria pessoa faminta pode aplacá-la.
Reflitamos mais
um pouco sobre isso.
Egoísta e
egocêntrico, o filho mais moço abandonou a Casa do Pai sem esboçar nenhuma
preocupação com as repercussões emocionais que sua partida inesperada causaria
ao seu genitor, já de idade avançada.
Nesse segmento
da parábola Jesus simboliza o comportamento das pessoas que, sob a impulsão do
egoísmo e do orgulho, buscam tão-somente a satisfação de seus desejos
materiais, como se fossem criaturas privilegiadas pelo Criador, sem ter a
mínima preocupação com os males que estão causando aos seus semelhantes.
No Brasil dos
dias atuais, é cada vez maior o número de pessoas que, aturdidas, questionam
como é possível, por exemplo, que indivíduos eleitos pelo voto popular e/ou
ocupantes de cargos públicos relevantes desviem bilhões de reais destinados à
saúde, à educação, à segurança...
— “Como podem agir dessa forma e ficar
sorrindo à toa, escarnecendo daqueles que os elegeram e/ou guindaram para os
postos de cumeada da Administração Pública, exatamente para fazer o contrário?”
– indagam, enraivecidas e desesperançadas.
Obnubiladas pela revolta, chegam mesmo a questionar,
de forma blasfêmica, como é que Deus permite o cometimento de tais infrações, esquecidas
de que, dotados de livre-arbítrio, todos nós somos livres para semear o que
quisermos, obrigando-nos, no entanto, à colheita dos frutos que germinarem,
independentemente de sua quantidade e qualidade.
Jesus revela o
mau uso do livre-arbítrio no comportamento inicial do filho mais novo. O Pai não
lhe disse para não ir, nem tampouco o incentivou a fazê-lo. Nessa construção
simbólica está dito que Deus sabe que tudo o que fizermos servir-nos-á de lição
e, mera questão de tempo, levar-nos-á de volta aos Seus braços, pelo amor
(provações) ou pela dor (expiações).
Assim, quando
convivermos, como nos dias atuais, com políticos e gestores públicos que se
locupletam de verbas destinadas à satisfação das necessidades básicas da população, sobretudo das classes menos favorecidas, vejamo-los como doentes
morais cuja vida dissoluta acarretar-lhes-á graves problemas existenciais, “ex
vi” do efeito bumerangue da Lei de Causa e Efeito, por isso mesmo também chamada de Lei do Retorno.
É possível até
que eles passem existências inteiras bloqueando a consciência, ludibriando e
escarnecendo do povo, crentes que são tão espertos que suas falcatruas jamais
serão descobertas. Um ledo engano, pois tudo está sendo detalhadamente registrado
no Livro de suas vidas, com caracteres inapagáveis.
Noutro polo
estão legiões de pessoas sofrendo e morrendo à míngua nos corredores de
hospitais superlotados; crianças e jovens adolescentes matriculados em escolas completamente
desestruturadas; criaturas sendo assaltadas à luz do dia no interior de ônibus,
em suas casas e nos mais diversos locais que frequentam..., tudo devido ao
descaso com que seus governantes, representantes e gestores cuidam da
coisa pública, protegidos pelo silêncio conivente do Poder Judiciário.
— “Por que Deus não faz nada para ajudá-las?;
Que mal elas fizeram para sofrer tanto?” – indagam muitas pessoas.
Dentre os
atributos da Divindade cintila a soberana justiça e bondade, em virtude dos quais
nenhuma injustiça ou maldade provém do Criador. As dores e os sofrimentos que
experimentamos nada mais são do que a colheita dos frutos insalubres produzidos
pelas más sementes que lançamos no solo universal em tempos pretéritos.
Nesse diapasão,
as criaturas sofredoras que hoje nos compadecem fizeram mal a si mesmas, foram,
em grande parte, políticos, administradores. magistrados e empresários
corruptos que se refestelaram com o dinheiro público e que agora sofrem na Terra
as mesmas carências que acarretaram aos seus irmãos de jornada.
Nada mais justo
e equânime.
Por isso é que
o filho pródigo experimenta o sofrimento acerbo resultante de suas más
escolhas. Como ele se distanciou do amor e da pureza que havia na Casa do
Pai, precisa expiar seus atos (“ação”), ou seja, extrair (“ex”) a
pureza (“pia”) que jaz adormecida em seu imo.
O Universo é
regido pela Lei do Amor. Quando nos distanciamos desse Amor, que é Deus (João,
4:8), fugindo para terras longínquas, deslocamo-nos do nosso eixo divino,
enfraquecemo-nos, tornamo-nos carentes. Eis, em suma, a gênese das doenças físicas e mentais que nos acometem.
A expiação é,
pois, o mecanismo acionado pela Vida para nos convidar ao amadurecimento
psicológico, à reflexão profunda sobre os nossos equívocos atitudinais, para nos despertar sobre a necessidade imperiosa de convergir nossos recursos para a
nossa reabilitação, conforme veremos nos próximos versículos.
“E, caindo em si...“
Refere-se
Jesus, neste brevíssimo verseto, ao momento fatal em que o ser humano cai em si, isto é, toma consciência das
ações desvirtuadas que praticou sob o domínio do desamor, da rebeldia e do
orgulho.
Muitas pessoas
pensam que a dor e o sofrimento são punições aplicadas por Deus aos infratores
dos Seus Mandamentos. Não é isso que Jesus nos ensina na parábola em comento,
nem em qualquer outro ensinamento moral.
Deus jamais
pune seus filhos, pois o Amor não se aborrece com nada! O que acontece é que as
Leis Divinas que regem o Universo são autoaplicáveis e, por isso, ninguém pode
fugir delas, diferentemente das leis humanas que discriminam pobres e ricos, pessoas comuns e indivíduos poderosos.
Quando, por
exemplo, nos afastamos da Lei Maior, que é a Lei do Amor, para gozarmos dos
prazeres mundanos, o desamor que cultivamos produz dores e sofrimentos que nos
convidam à reforma comportamental.
— “A dor ensina a gemer” – apregoa, com
irrepreensível exatidão filosófica, um conhecidíssimo ditado popular.
— “A dor é um excelente mecanismo da Vida, a
serviço da própria Vida” – filosofa a querida Mentora Joanna de Ângelis no livro
Plenitude, pois induz o Espírito a cair
em si ao sentir os dolorosos efeitos de suas atitudes egoicas.
A evolução
acontece pelo amor e para o amor. Por isso, é que somente transmutando o desamor em amor, o egoísmo em
altruísmo, a rebeldia em mansidão e o orgulho em humildade conquistaremos o direito de desfrutar da
pura e eterna felicidade angelical.
Na parábola
paradigmática, o filho gozador cai em si
e percebe que suas carências psicofísicas decorriam do abandono da Casa do Pai,
recordando-se, então, com olhos marejados de lágrimas refrescantes, que no lar paterno jamais lhe
faltara nada. Graças à dor, ele descobre
que seus padecimentos não provêm da conjuntura externa, mas, sim, dos seus
próprios desvirtuamentos.
Meditando
profundamente sobre esse ponto nevrálgico, inferimos o quanto somos injustos
com o Criador quando O responsabilizamos pela falta da saúde, de alimentos, de
haveres materiais, de uma família bem estruturada ou seja lá do quer for, impelidos pela teimosia
atávica de não assumirmos a responsabilidade pelas nossos erros, pelas nossas infrações às Leis Naturais que regem o Universo.
Cair em si significa, portanto, tomar
consciência dos erros cometidos e aceitar que as carências de hoje são o resultado dos
abusos de ontem, porque se Deus criou o Universo por amor e para o amor, não executa
nenhuma ação desamorosa, desleal e/ou injusta.
A fé racional
nos mostra que a Fonte do Amor, que é Deus, não privilegia alguns dos seus
filhos em detrimento de outros; se uns têm corpos saudáveis, famílias equilibradas
e riquezas patrimoniais, e outros padecem de graves enfermidades, vivem em ambientes
domésticos desarmonizados ou em pobreza
absoluta, isso se deve ao modo como usaram o livre-arbítrio.
É de elevado
alcance termos sempre presente que a nossa destinação não é o sofrimento, mas o
amor, haja vista que muitas pessoas que têm visão deturpada do processo
reencarnacionista costumam dizer que nós estamos sofrendo porque estamos “queimando o carma”, quer dizer, pagando
pelas coisas erradas que fizemos no passado.
A etimologia
desmascara essa alogia ao nos revelar que a palavra “carma” significa simplesmente “ação”.
Logo, se hoje estamos sofrendo é porque em passado recente ou remoto, desta ou
doutras vidas, exercemos o nosso livre-arbítrio em desacordo com as Leis de
Deus. Entretanto, não reencarnamos para sofrer inertes e apáticos, porém para
desenvolver a autoconsciência e lançar no solo universal as sementes
transmutadoras do amor, do bem, do bom e do belo.
“Quantos trabalhadores de meu pai têm
abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!”
Temos aqui o
momento em que, espiritualmente faminto, o filho pródigo se lembra da fartura
que havia na Casa do Pai, que ele
abandonara voluntariamente para curtir os pseudoprazeres hedonistas.
As Leis Divinas
estão inscritas em nossa consciência, conforme nos revela a questão 621 de O
Livro dos Espíritos.
Quando as
desprezamos para trilhar as vicinais tentadoras da vida em busca dos prazeres
egoicos – conforme fez o filho pródigo –, mais cedo ou mais tarde elas
pontificarão e reocuparão seus espaços, pois não nos é possível sufocar, de
forma duradoura, a nossa Essência Amorosa.
Morrendo de
fome, o filho gozador sente saudade da fartura de pão que havia no lar abandonado. Com brilhantismo poético, Jesus
utiliza o pão como símbolo do amor e
a Casa do Pai como ícone da Essência
Divina que somos.
Estar em casa
significa, portanto, estar em comunhão consigo e com Deus. Quando isso acontece temos
abundância de pão, somos ricos de
amor; quando não, sentimo-nos famintos do pão-amor,
nutriente essencial que ninguém pode nos dar, porquanto sua única fonte
provedora é o autoamor.
“Levantar-me-ei, e irei ter como meu pai...”
Ao chegar ao
fundo do poço, o jovem perdulário cai em si e emprega seus resíduos energéticos
na construção do nobre propósito de levantar-se, sacudir a poeira e retornar à casa
paterna.
Ao idealizar
seu arrependimento ele exercita o primeiro ato de autoamor, desde que
abandonara seu lar, condição indispensável à deflagração do processo de
sintonia com Deus, a Fonte do Poder, do Amor e da Vida. Ele ainda não praticou
o ato restaurador, mas suas reflexões conscienciais o motivam a colocar em
prática seu nobre ideal saneador.
Vale relembrar,
por oportuno, que o processo de mentalização das ideias ocorre no plano das
potencialidades infinitas do Eu Divino que somos. Em assim sendo, todos nós,
sem nenhuma exceção, dispomos, em estado latente, de todos os recursos
necessários para a superação dos problemas e a retirada das pedras que surgirem em nosso caminho.
Não obstante,
somente quando a nossa consciência desperta é que percebemos a posição em que
nos encontramos e definimos para onde queremos ir.
Por isso, é
fundamental idealizarmos o que fazer e planejarmos as futuras ações, de sorte a
privilegiar as coisas do Espírito Imortal criado por Deus e conquistar, por
mérito, o direito de ascender para o mundo angelical.
[...] “Dir-lhe-ei: — Pai, pequei contra o céu
e perante ti.”
Na Idade Média,
a palavra pecado foi maliciosamente deturpada para conferir suporte à crença
dogmática de que o pecado é algo abominável que precisa ser eliminado da nossa
vida, com muita penitência, doações generosas e sofrimento. Nessa matriz
medieval, o pecado insculpe a ideia de culpa na consciência do infrator,
convencendo-o de que deve ser punido para execrar sua falta.
A concepção
cristã não abona nada disso.
A palavra
pecado tem suas raízes etimológicas assentadas no vocábulo hebraico “hamartia”, que significa tão-somente “errar o alvo”. E é assim que Jesus se
refere ao pecado em todo o Seu Evangelho.
Na parábola em
estudo, o filho mais moço errou o alvo ao deixar a estrada do amor e tomar o
atalho franqueado pelas portas largas das tentações egoicas.
Pecar
significa, portanto, errar o alvo, equivocar-se quando ao caminho a ser
seguido, como sucedeu com o filho pródigo que agora deseja se reabilitar.
E é exatamente
isso que Deus deseja de nós: nossa reabilitação!
Criados simples
e ignorantes, é natural que erremos como aprendizes da Vida, pois todo
aperfeiçoamento se dá pelo processo de erros e acertos. E foi exatamente por
isso que o Pai não impediu o filho de partir para terras distantes em busca de
gozos e prazeres libertinos.
Reflitamos,
agora, sobre o significado da oração “pequei
contra o céu e perante ti”. Inicialmente, precisamos entender que, neste
contexto, a palavra céu representa a
consciência da criatura humana, onde está gravada a Lei de Deus, conforme
atesta a questão 621 de O Livro dos Espíritos:
— “Onde está escrita a lei de Deus?”
—“Na Consciência”.
Assim, quando
agimos em desacordo com as Leis Divinas maculamos nossa consciência, afastamo-nos
do Eu Divino que somos e nos distanciamos de Deus. Um péssimo cenário.
Não é ao Pai
que desonramos ao desrespeitar Seus mandamentos, pois, soberanamente justo e
bom, Deus não se perturba com as nossas faltas. Prejudicamos a nós mesmos ao
instaurar graves conflitos psicológicos entre o indivíduo eterno que somos e a
pessoa finita que estamos.
“Já não sou mais digno de ser chamado teu
filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.”
Embora
sinceramente arrependido, o jovem estroina sente-se indigno de ser recebido
como filho, por ter pecado. Idealiza, então, assumir a posição de um simples
trabalhador da gleba rural onde nascera.
É deslumbrante
constatar, mais uma vez, a eficácia expressional de Jesus, que desta feita põe
em destaque a virtude essencial da humildade de coração.
Como todo
aprendiz da Vida, o mancebo gozador somente poderá reparar suas faltas
transmutando o desamor, a rebeldia e o orgulho egoicos em amor incondicional,
mansidão fraterna e humildade beneficente.
Seguindo
fielmente essas diretrizes cristãs a Doutrina Espírita nos convida à reforma
íntima para melhor, mediante o cultivo do autoamor, para que produzamos o maior
número possível de sementes amorosas e as semeemos em benefício dos nossos
irmãos carentes, de forma indistinta e incondicional.
Na parábola, o
filho pródigo pensa humildemente em solicitar trabalho ao Pai, visando sua reabilitação. Na vida real não é diferente:
precisamos trabalhar em nossa intimidade para nos reabilitarmos perante a nossa
própria consciência, pois embora o arrependimento pelos erros cometidos
constitua o primeiro movimento renovador, não basta para realizar o nobre
tentame; imprescindível se faz que sempre aprendamos com os erros e procuremos repará-los.
Assim, o
autoperdão não anula, por si só, os erros cometidos. Isso não existe na Lei
Divina, pois embora seja o mecanismo precioso que Deus nos oferece para
facilitar a reabilitação da nossa consciência, tumultuada pelos conflitos
psicológicos causados pelo exercício equivocado do livre-arbítrio, para que
haja a verdadeira reabilitação são também necessárias a expiação e a reparação
dos males praticados.
O filho
pródigo, após desperdiçar os bens herdados do seu genitor, arrepende-se e
decide reparar seus desatinos laborando como trabalhador braçal na fazenda do Pai, tendo em mira a
reconstituição do patrimônio por ele desperdiçado em libações alcoólicas, orgias
e bacanais nababescos.
Açoitado de
forma inclemente pela dor, ele resolve passar pela porta estreita do processo de autorreabilitação, objetivando
devolver à Vida tudo o que dela havia subtraído.
“E, levantando-se, foi para seu pai...”.
Agora sim, ele
dá efetivamente o primeiro passo para concretizar seu ideal renovador.
A propósito: é
muito comum as pessoas idealizarem grandes e edificantes autotransformações
para se tornarem melhores, impelidas pelos apelos da própria consciência. Contudo, para
infelicidade de si mesmas, a preguiça moral não permite que suas metas e
objetivos nobilitantes transponham as fronteiras da idealização e adentrem no
mundo real.
Tendo em vista
que o pensamento sempre precede a ação, o processo de autoconhecimento é
deflagrado a partir de uma idealização em que o ser pensante define o caminho
biopsicossocial que pretende percorrer. Não obstante, a
simples formulação da ideia não basta para concretizar o ideal; o esforço
diuturno é imprescindível.
Jesus nos alerta
que enquanto permanecermos caídos não daremos um passo sequer em direção a Casa do Pai. Portanto, é
imperioso que nos levantemos e lutemos com toda vontade e entusiasmo para
realizar as metas e objetivos colimados para a nossa vida, plenamente
conscientes dos ditames da Lei de Ação e Reação, ou seja, de que se não
agirmos, o céu não nos ajudará.
Nesse sentido,
o primeiro passo grandioso é sermos verdadeiros conosco mesmos, deletando toda
e qualquer cogitação que fique à espera de um milagre que jamais acontecerá,
pois toda reação decorre de uma ação a ela correspondente.
[...] e, quando ainda estava longe, seu pai o
viu e, cheio de íntima compaixão, correu em sua direção, abraçou-o e beijou.”
Neste
versículo, Jesus leciona que Deus sempre nos trata com amor e íntima compaixão,
mesmo quando Dele nos afastamos para curtir os pseudoprazeres mundanos. Soberanamente
bom, jamais nos pune, afasta ou castiga.
Na língua
portuguesa, a palavra compaixão é sinônimo de dó, pena, piedade, comiseração. Na
Psicologia Espírita o mencionado vocábulo possui envergadura conceitual
diferenciada, como veremos logo a seguir.
Compaixão é uma
virtude proativa. Tem um significado positivo, pois nos propele à compreensão e
aceitação das pessoas que erram, sem que, todavia, aceitemos seus erros, mas os compreendamos como frutos da ignorância, de desvios atitudinais que precisam
ser corrigidos, e não punidos.
Quando
cultivamos sentimentos de dó, piedade ou comiseração por nós mesmos ou pelos
outros, sentindo-nos ou sentindo-os “coitadinhos”,
envergamos as máscaras da auto e da alopiedade engendradas pelo pseudoamor.
Notemos que
Jesus afirma que o filho pródigo levantou-se, isto é, tomou uma atitude
proativa, pois poderia ter ficado caído, agrilhoado pela autopiedade. E ao levantar-se
ele praticou um ato de autocompaixão — e não de autopiedade —, compatível com
sua destinação angelical.
Não cabe,
portanto, dentro dessa concepção amorosa, as palavras atemorizantes de falsos
profetas de que Deus envia para o inferno aqueles que transgridem seus
mandamentos. Até o Papa atual repudia esse absurdo!
Devemos também
observar as diferenças profundas que existem nos ensinamentos professados sobre
o Pai-Criador por Moisés, no Pentateuco, e por Jesus, no Novo Testamento,
procurando sempre contextualizá-las.
Moisés difundiu
a visão de um Deus cruel e vingativo (“olho
por olho, dente por dente”), para conter, pelo temor, os desmandos e a
libertinagem do povo ignorante recém-liberado da escravidão do Egito. Jesus, mais de
um milênio depois, insculpiu o conceito de um Deus amoroso e compassivo para
uma humanidade bem mais evoluída do que a contemporânea de Moisés. .
A compaixão é
filha dileta do amor, pois é a virtude que nos faz entender que o irmão que
errou não é indigno, mesmo quando o ato por ele praticado esteja prenhe de indignidades.
Deus jamais se ofende com os nossos erros, pois, Onisciente, sabe que o nosso potencial amoroso nos conduzirá fatalmente aos Seus braços. Não nos pune, mas gravou Suas leis em nossa consciência para que nos purifiquem pelo amor (provações) ou pela dor (expiações).
Deus jamais se ofende com os nossos erros, pois, Onisciente, sabe que o nosso potencial amoroso nos conduzirá fatalmente aos Seus braços. Não nos pune, mas gravou Suas leis em nossa consciência para que nos purifiquem pelo amor (provações) ou pela dor (expiações).
O grande problema
é que, em face do erro, adotamos uma postura de indignidade e permanecemos
caídos, punindo-nos por termos errado, jungidos a concepções religiosas
deturpadas sobre o conceito do pecado.
É deveras impressionante
que em pleno século XXI ainda acreditemos em "pecados mortais", que ainda
creiamos que nossos desvios de conduta nos alijam para sempre da Casa do Pai e nos lançam no fogo do
inferno, onde arderemos por todo o sempre, como um churrasco que nunca fica no ponto preferido pelo diabo...
É essencial meditarmos
sobre os ensinamentos morais de Jesus: Deus sempre acolhe o filho sincero que
busca sua reabilitação, por mais deploráveis que sejam as ações por ele
praticadas.
NOTA: Sugerimos aos queridos irmãos e
irmãs que, à luz dos ensinamentos morais anteriormente veiculados, reflitam
serenamente sobre como vêm se comportando em face das denúncias de assédio
sexual feitas por centenas de mulheres contra o médium espiritualista - e não espírita - João de
Deus.
“E o filho então lhe disse: — “Pai, pequei contra
o céu e perante ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho.”
Dá-se aqui, de
forma concreta, o exercício efetivo da humildade, antes apenas idealizada. Apesar
de o Pai tê-lo recebido com muito amor e compaixão, o filho arrependido ainda
se sente indigno.
Nesta parte da
parábola, com insuperáveis habilidade e elegância de estilo, Jesus enfoca a
consciência maculada pelos registros dolosos e culposos que documentam as ações
errôneas que todos nós praticamos ao adentrarmos pela porta larga da perdição
no mundo dos prazeres mundanos e vestirmos os trapos da indignidade, dos quais
só nós mesmos podemos nos desvencilhar.
Entretanto,
mesmo esfarrapados e malcheirosos, Deus nunca nos vê como filhos indignos. O
Amor que É não deixa!
Com efeito,
logo na primeira página de A Gênese, Allan Kardec apregoa que “para Deus, o passado e o futuro são o
presente”, afirmação que nos permite inferir que Deus sempre nos vê como
Arcanjos, conforme testifica a Questão 540 de O Livro dos Espíritos, cuja
leitura recomendamos aos caros leitores.
Quando Deus
cria o princípio inteligente que animará um átomo, Ele, soberanamente bom, já
enxerga esse princípio inteligente — que durante milênios estagiará nos reinos
mineral, vegetal, animal e hominal — como um Arcanjo. Ou seja: Deus nos vê
COMO SOMOS E NÃO COMO ESTAMOS!
Como agravante
derivado da ignorância de estarmos escravizados a concepções religiosas
deturpadas sobre o significado do pecado, adotamos postura de indignidade e ficamos
caídos quando erramos, punindo-nos pelas infrações perpetradas contra as Leis
Naturais.
Como Deus
sempre trata seus filhos com dignidade, o processo de reabilitação depende
única e exclusivamente da própria criatura que infringiu a Legislação Celeste.
O que Deus
sempre faz em prol do filho sinceramente arrependido é fecundar sua
mente com o Fluxo do Seu Amor, para que ele fortaleça cada vez mais seus níveos
propósitos evolutivos.
Cuida-se, sem
dúvida, de um processo longo e árduo, porquanto reconstruir é sempre muito mais
difícil do que destruir. É relativamente
fácil adentrar pela porta larga no mundo do desamor, mas é muito difícil trilhar
o caminho de volta para o amor, pois, para tanto, necessitamos fazer inúmeros
exercícios de autoamor para purificar nossa consciência, que é o Divino em nós.
É por essa
razão que o filho pródigo, agora arrependido, deseja ser um dos “trabalhadores do Pai”.
Subsumindo esse
fragmento da parábola na ambiência psicológica, desvendamos que o sentimento de
indignidade é um CONFLITO NECESSÁRIO que nos convida à reflexão profunda
e a prática subsequente de exercícios reabilitantes.
Esse
ensinamento de Jesus, como tantos e tantos outros, tem relevante conteúdo
psicológico. Revela-nos, de
forma cristalina, que da mesma forma que Deus sempre nos acolhe, precisamos
também nos acolhermos para transmutar as nódoas desamorosas, rebeldes e orgulhosas
que enodoam e mancham nossa consciência, em fluxos amorosos, brandos e humildes
de coração.
Voltar para
casa significa exatamente isso: reformarmo-nos intimamente para melhor;
exercitarmos saudavelmente o nosso livre-arbítrio.
Todas as vezes que
matamos nossos ideais amorosos semeamos ervas daninhas cuja futura e
obrigatória colheita causar-nos-á a morte psicoespiritual, que, na verdade, é
um convite ao renascimento, à reforma íntima para melhor aconselhada pelo
Espiritismo.
Noutras
palavras: matamos temporariamente o bem dentro de nós mesmos ingerindo o veneno
do desamor, sofrendo, em consequência, as dores que nos reensinam a viver, a
nos arrependermos, o primeiro passo efetivo da reabilitação, conforme o
Codificador assinala no Capítulo VII, da 1.ª Parte, de “O Céu e o Inferno”:
— “O arrependimento, conquanto seja o primeiro
passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a
reparação. Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três
condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.
O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o
caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito,
destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma
anulação.”
Quando nos
afastamos da Casa do Pai, ou seja, da
Essência Divina que somos, precisamos eliminar o lixo psíquico que ensombreia
nossa Alma.
Foi o que
aconteceu com o filho mais moço. Na primeira fase, mergulhou fundo nas fossas
impuras dos gozos e prazeres hedonistas; na segunda, exaurido e movido pelo
arrependimento, retornou ao lar para reparar suas faltas através do mecanismo
educativo da provação.
Nesta etapa do
nosso trabalho abrimos um parêntese para sugerir aos queridos leitores que
estudem atenciosamente as Questões 114 a 127 de O Livro dos Espíritos, porquanto
abrangem o uso equivocado do livre-arbítrio e o respectivo processo de reabilitação.
“Mas o pai disse aos seus
servos: Depressa, trazei a melhor roupa e vesti-o. Ponde-lhe um anel no dedo e
sandálias em seus pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e
alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi
achado. E começaram a festejar.”
Jesus nos
lembra que por mais errados que estejamos jamais perdemos a condição maior de
filhos de Deus. Pai amoroso e compassivo, Ele sempre nos recebe com alegria
festiva quando, sinceramente arrependidos, reavivamos o amor que somos.
Quando nos
ausentamos da “Casa do Pai”, símbolo
da nossa Alma, ficamos perdidos nos labirintos confusos da ignorância,
enfraquecemos e morremos psicologicamente; quando regressamos, revivemos,
restauramos o fluxo energético Criador-criatura, retornamos aos braços ao Amor
em busca da pura e eterna felicidade a que estamos predestinados como filhos de
Deus que somos, herdeiros necessários do Universo.
Daí a alegria
efusiva do Pai ao receber de volta
seu filho amado,
Decodificando a
linguagem figurada, inferimos que voltar para Casa significa reavivar nossa espiritualidade para, logo a seguir,
despertar nossa religiosidade e deixar o Amor Divino restaurar nossa Saúde
Espiritual.
Soberanamente justo
e bom, Deus sempre nos oferece todos os recursos necessários à nossa evolução,
mesmo quando já os desperdiçamos várias vezes. No entanto, para usufruí-los
precisamos demonstrar humildade e arrependimento sinceros, o que fatalmente
sucederá em futuro próximo ou remoto, a depender do esforço que desenvolvamos nesse
sentido.
Estudemos, a partir de agora, a postura do
filho mais velho, ignorada pela maioria dos doutrinadores evangélicos.
Ao que tudo
leva a crer, ele é um bom filho, cumpre seus deveres e sempre esteve ligado ao
Pai por laços amorosos indissolúveis. Será mesmo?
“Enquanto isso, o filho mais
velho que estava no campo se aproximou da casa, ouviu a música e as danças.”
Neste trecho,
Jesus esclarece, com sutileza, qual era a postura real do primogênito, ao
deixar bem claro que em momento algum ele entra na Casa do Pai: ele estava no
campo, aproximou-se da Casa atraído pela música, contemplou as danças, mas
permaneceu do lado de fora, nas imediações do lar da família.
Ora, como na
linguagem figurada estar na Casa do Pai
simboliza estar em comunhão com a própria Essência Divina e, por extensão, com
Deus, Jesus mostra que o primogênito parecia estar em sintonia com o Pai, mas não estava. Com elevado descortino,
ele diferencia PARECER e SER!
A postura do
filho mais velho é tipicamente pseudoamorosa: ele está bem perto da Casa do Pai,
mas não entra nela. Em linguagem psicológica: ele se movimenta em torno do AMOR utilizando o
disfarce do PSEUDOAMOR, com o qual tenta esconder seu DESAMOR.
Demonstrando
extraordinário conhecimento dos escaninhos da mente, Jesus nos adverte sobre a
importância de conhecermos e vigiarmos as máscaras do ego, porquanto tais
disfarces são produtos de longa e refinada elaboração egoica. Exatamente por
isso Jesus utiliza simbolicamente a figura do filho mais velho para nos
prevenir sobre essas armadilhas egoicas.
“E chamando um dos servos perguntou-lhe o que estava acontecendo.
Este lhe respondeu: — “Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o bezerro cevado,
porque o recebeu de volta são e salvo.”
Conforme a
metáfora elaborada com esmero artesanal por Jesus, o filho mais velho permanece
do lado de fora da Casa e procura saber o que estava acontecendo através de um
dos servos da fazenda, evitando entrar em contato com o Pai.
Eufórico, o
servo lhe diz que seu irmão voltara são e salvo.
“O filho mais velho encheu-se
de ira, e não quis entrar na casa. Então seu pai saiu e insistiu com ele.”
Neste versículo
nosso Mestre, Guia e Modelo Divino patenteia o desagrado do primogênito com a
recepção festiva dada ao seu irmão mais jovem. Ao invés de também festejar seu
retorno, ele se revolta e deixa bem claro seu distanciamento do Pai, apesar
dele estar tão perto fisicamente.
O Pai, todavia,
em grandioso gesto de amor, mansidão e humildade, vai ao seu encontro e insiste
para que ele entre em Casa e participe dos festejos da família em virtude
da volta do seu irmão.
A metáfora é primorosa:
Deus sempre nos convida para que entremos e/ou permaneçamos em comunhão com Ele
e com o nosso próximo, independentemente de reciprocidade.
Observemos, com
rigor analítico, que a indignidade do filho mais velho é bem diferente da
mácula do filho mais novo, pois enquanto este, ao se sentir indigno,
arrependeu-se e busca sua dignificação, aquele nada faz pois está enceguecido
pelo orgulho e pela revolta.
“Mas ele respondeu ao seu
pai: — “Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir os teus
mandamentos, e nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus
amigos.”
Este verseto
veicula a queda das máscaras do ego de há muito utilizadas pelo filho mais
velho. Mas para que entendamos isso, precisamos apreender o sentido dado por
Jesus à palavra mandamento.
Conforme
depreendemos da exegese do Capítulo 22, versículos 35 a 40, do Evangelho de
Mateus, a seguir reproduzido. Jesus a ela atribui o significado de “exercício das Leis criadas por Deus para
conduzir o Universo e todas as Suas criaturas”, nada tendo a ver, portanto,
com a ideia de ordem imperativa, de algo que se deve fazer compulsoriamente,
sob pena de sofrer sanções. Afinal, não se pode admitir a existência do amor
forçado, divorciado de si mesmo.
Eis o
ensinamento de Jesus:
“E um deles, doutor da lei,
interrogou-o para o experimentar, dizendo: Mestre qual é o grande mandamento da
lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, e de
toda a tua alma, e de todo o teu pensamento, Este é o primeiro mandamento, E o
segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses
dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.”
Neste diálogo,
Jesus enfatiza a soberania da Lei do Amor — síntese da Legislação Divina — onde a palavra
mandamento representa apenas uma regra de conduta a ser exercitada pela
criatura ao longo do seu processo evolutivo, no qual, inclusive, disporá de
todo o tempo que for necessário para concretizar gradativa e suavemente esse
elevado mister.
É por essa
razão que o Evangelho nos convida ao exercício consciente do amor e não a
amarmos por obrigação.
Jesus, como nos
ensina a Benfeitora Joanna de Ângelis, é o “psicoterapeuta
excelente, o grande médico das almas.”
E, como tal,
sabe que seres simples e ignorantes não se transformam por decreto. Por isso,
jamais sugeriria a prática coercitiva do amor.
No versículo
sob destaque, o filho mais velho mente de forma cínica ao dizer que apesar de
servir fielmente ao Pai jamais dele recebeu um único cabrito para festejar com
seus amigos, pois, como já vimos, os bens da fazenda foram repartidos
igualmente entre ele e seu irmão.
Com notável
perspicácia, Jesus simboliza no primogênito as pessoas que vivem dizendo que
Deus não lhes dá nada, enquanto a outros dá de tudo, questionamento sobre o
qual nos deteremos mais um pouco para consagrar a justiça e a magnanimidade
divinas, a partir de reflexões conscienciais sobre alguns exemplos colhidos no
cotidiano terrestre.
De ordinário,
somente nos lembramos de que o nosso corpo físico, o ar que respiramos, o sol
que nos aquece, a água que nos dessedenta, as plantas e animais que nos alimentam são dádivas divinas quando ficamos doentes, não conseguimos respirar direito,
sentimos frio, estamos com sede, passamos fome...
Salvo raras e
louváveis exceções, quando estamos usufruindo de maneira regular desses
recursos esquecemo-nos de que são joias amorosas emprestadas por Deus para que
evoluamos, e, pior ainda, quando alguma delas nos falta, em razão do uso
abusivo que dela fizemos, reclamamos, blasfemamos, a ponto de dizermos que nem
um só cabrito ganhamos do Pai-Criador.
Jesus deixa bem
claro neste versículo a cobiça e a chantagem do primogênito que, usando as
máscaras egoicas da martirização e da vitimização, intitula-se servo fiel e
diligente — e não filho amoroso — que nunca descumpriu nenhum dos mandamentos
do Pai e, por isso, merece remuneração compatível com sua conduta ilibada.
Muitas pessoas
agem de forma semelhante à do filho mais velho quando se veem diante das
dificuldades comuns e rotineiras do mundo de expiações e de provas em que se
autoaprisionaram, e indagam de nariz arrebitado e dedo em riste:
— “Que mal eu fiz a Deus para merecer uma vida tão
infeliz?”
Aquelas que
pensam assim precisam entender que não podemos fazer mal a Deus, pois Ele não
se afeta com os nossos disparates e inconsequências emocionais. Nós é que, ao
lhes darmos curso, infelicitamos nossa vida.
Assumir a
posição de vítima ou de mártir, além de não resolver problema algum, agrava
nosso destino.
Ao se colocar
como servo da gleba e exigir remuneração pelo seu trabalho, o filho mais velho
demonstra insofismável dissenção de interesses, razão pela qual se recusa a
entrar na Casa do Pai. Isso fica ainda mais claro quando se refere ao irmão
como “esse teu filho”.
A
obrigatoriedade de servir a Deus é uma farsa criada por religiões ditas
cristãs, a partir da deturpação de lições oferecidas por Jesus em Seu
Evangelho, com o fito de barganhar a conquista de espaços celestes para seus fiéis.
Com base nessa
crença intencionalmente deformada, muitas pessoas entregam regularmente uma
porcentagem de tudo que ganham para os líderes de suas seitas, convictas de que
estão adquirindo o seu lugar no céu; outras ficam boazinhas pouco antes de morrer
e doam parte de seus haveres para os pobres; outras pagam para que rezem e
peçam a Deus que elas tenham uma boa morte, e por aí vai o propinoduto...
“Mas quando volta para casa
esse teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, matas o bezerro
cevado para ele!”
A inveja, o
ciúme, o despeito e a cobiça do filho mais velho vêm à tona, deixando à mostra
a ganância que sempre alimentara de ser o único herdeiro dos bens de sua
família, de há muito mascarada pelo pseudoamor.
Nessa
figuração, Jesus retrata as pessoas que creem que vão para um céu de beatitude
eterna por cumprirem suas obrigações religiosas, enquanto os pecadores devem ir
para o inferno e ser banidos para sempre do convívio de Deus.
O primogênito enverga a máscara egoica do puritanismo
quando desconhece o irmão e diz: “este teu filho que desperdiçou a tua
fazenda com as meretrizes”.
Vale lembrar que o puritanismo é um mecanismo de
projeção. A pessoa puritana condena na outra exatamente o que gostaria de ser
e/ou fazer, mas que reprime para se sair bem na foto social. A pessoa censurada é, na realidade, o espelho onde os
seus desejos estão refletidos. Por isso, tenta quebrá-la.
Na parábola, o
irmão estroina fizera tudo quanto o primogênito desejava fazer, mas reprimia
seus desejos para preservar a imagem de bom moço. Daí a sua indignação.
Em todo
processo de mascaramento está implícito o orgulho disfarçado. Ou seja: quando
alardeamos que não somos orgulhosos é porque o somos sob o disfarce da
pseudo-humildade; quando negamos o desamor, mascaramo-lo com o pseudoamor, e
assim por diante.
Nesta parte da
história contada pelo nosso Mestre, revela-se-nos que o filho mais velho sofre muito
por invejar as deferências e privilégios dispensados ao irmão perdulário que
regressara de terra longínqua, pois também queria ser tratado da mesma
forma.
Como agravante,
com a visão turbada pela ganância invejosa ele não percebe que a causa do sofrimento
que o infelicita está em si mesmo, como já percebeu seu irmão após o despertar
da consciência, atribuindo sua desdita ao Pai e ao irmão irresponsável.
Eis, em todos
os seus matizes, o fenômeno psicológico da projeção, por cujo intermédio
projetamos nos outros as causas dos nossos sofrimentos.
A mensagem
transmitida por Jesus nesse segmento da parábola é de clareza diamantina, pois
nos mostra, sem quaisquer subterfúgios, a nocividade das energias negativas
encapsuladas nesse disfarce hedonista, que, a um só tempo, nos distancia da
nossa própria essência e do Criador.
A pessoa que
usa esse disfarce crê-se fiel cumpridora dos seus deveres; acredita-se melhor
do que é, quando, na realidade, somente assim se considera por força da máscara
instalada pelo pseudoamor: PARECE SER O QUE NÃO É!
Para se fazer
entender, Jesus elegeu a figura do irmão mais velho como ícone das máscaras
produzidas por elaborações mentais egoicas e estapafúrdias que exigem longo e
estafante trabalho psíquico para serem totalmente removidas.
Por essa razão,
o filho mais moço e ainda inexperiente, lançou-se sem peias nem medidas ao
cultivo dos prazeres egoicos, enquanto o filho mais velho e experiente ficou
aparentando dedicação sincera ao Pai.
O impacto das
máscaras do ego na estrutura psíquica do indivíduo é devastador, superando, com
larga vantagem, as dores causadas pela vivência das negatividades, pois aquele
que se identifica com elas sofre de imediato as consequências do seu desamor,
despertando-se, pelo alarme da dor, para a necessidade de regressar o mais cedo
possível à Casa do Pai, ao passo que o ser mascarado se deixa engolfar em zonas
de conforto psicológico, animado pelos elogios e tapinhas nas costas que recebe
no meio social onde aparenta ser o que não é.
Porém, como é
óbvio, seus disfarces, por mais belos que sejam, não mais terão utilidade quando
acabar o carnaval psicológico.
Queridos
irmãos, queridas irmãs,
O Reino dos
Céus que tanto buscamos exteriormente está dentro de nós mesmos, aguardando o
despertar da nossa consciência, ou seja, o autoencontro da pessoa finita que
estamos com o indivíduo imortal que somos.
Dar-se-á, então,
o florescer do amor verdadeiro que nos premiará com a pura e eterna felicidade
angelical a que estamos predestinados. É por essa razão que devemos nos despir
das máscaras ilusórias que ludibriam nossa visão e retardam nosso retorno a Casa
do Pai.
O amor somente
vicejará quando acolhermos nosso desamor com muito carinho, transmutando-o
fraternalmente. Foi isso que
aconteceu com o filho mais novo na segunda fase de sua vida. Ele se aceitou
como indigno e, ato contínuo, buscou a reabilitação através do trabalho do bem,
dignificando-se. Seu irmão mais velho, ao contrário, projetou a sua indignidade
nos outros, obscurecido pelas teias sombrias do puritanismo.
Jesus volta a
se referir às máscaras do ego na passagem enigmática relatada por Lucas (8,18):
“Vede, pois,
como ouvis, porque a qualquer que tiver lhe será dado, e a qualquer que não
tiver, até o que parece ter lhe será tirado".
Os disfarces
psicológicos devem ser liberados lentamente da nossa personalidade,
aceitando-se as negatividades que eles simbolizam para, depois, transmutá-las
em virtudes através do amor.
É óbvio que
quanto mais cedo entendermos e fizermos isso mais depressa alcançaremos as
cumeadas da angelitude.
"Disse-lhe o pai: — “Filho, tu sempre estás
comigo; e todas as minhas coisas são tuas.”
Jesus deixa
claro que o Pai sempre esteve ao lado do filho, embora este não o
sentisse, não percebesse o tesouro que estava ao seu alcance.
Esse verseto
abriga duas questões de alta relevância psíquica.
1 - Será que Deus deixa de
estar com algum de seus filhos um instante sequer?
— Não, respondem os Anjos do
Senhor, pois como Deus é amor, ele sempre está com seus filhos, sejam eles bons
ou maus, gratos ou mal-agradecidos.
2 - Isso significa que todos
nós sempre estamos em comunhão com Deus?
— Não, dizem os mesmos
porta-vozes, pois apesar de Deus nunca se afastar de nós, podemos nos afastar
Dele pelo uso equivocado do livre-arbítrio. A condição para estar em comunhão
com Deus é estar em Casa, numa só palavra: amar!
Compreende-se,
assim, porque o processo de reabilitação do filho mais velho é muito mais
demorado e complexo do que o de seu irmão caçula, pois este já sabe o que
verdadeiramente é, ao passo que aquele ainda privilegia o PARECER, em detrimento
do SER.
Ao declarar “e todas as
minhas coisas são tuas” o genitor sob rejeição enuncia a realidade maior do
Universo: Deus é uma Grande Luz, a Energia do Amor que criou e cria todas as
coisas. É o Pai que está nos céus, ou seja, na consciência de cada uma das suas
criaturas, para as quais criou tudo o que existe no Universo.
É lamentável que, em sendo herdeiros do Universo, preocupemo-nos com ninharias, como o
cabrito metaforizado na parábola.
“Mas era
justo alegrarmo-nos e regozijarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e
reviveu, tinha se perdido e achou-se."
O epílogo da parábola não
poderia ser mais rico e proveitoso para insculpir a certeza de que Deus é Pai
justo e misericordioso.
Com efeito,
mesmo quando o primogênito permanece insensível aos seus apelos para que se
alegre e regozije com a revivescência do irmão mais novo, o Pai não o
repudia ou abandona, pois sabe que mais dia menos dia ele também adentrará em Casa.
Com essa
linguagem figurada Jesus desperta nossa atenção para a doce e animadora
realidade de que o Pai-Criador quer que todos nós, seus filhos amados,
revivamos, reencontremos o amor e desfrutemos da pura e eterna felicidade a que
nos predestinou no momento da criação.
Para tanto, é
essencial compreendermos essa divina e maravilhosa lição, a fim de nos
libertamos, o mais rapidamente possível, das máscaras e algemas excruciantes do
desamor, da rebeldia e do orgulho e, por mérito, entrarmos na Casa do Pai.
Observemos com
especial atenção que enquanto o filho caçula não se sente mais digno de ser
tratado como filho por ter cometido indignidades, mas volta para Casa e
se oferece como trabalhador para se recuperar dignamente, seu irmão se sente um
servo injustiçado e exige recompensa por tudo que fez pelo Pai.
É por isso que
a Psicologia Espírita doutrina que a recuperação das pessoas que têm perfil
semelhante ao do filho mais velho é muito mais complexa, pois elas precisam se desvencilharem das máscaras da servidão e do pseudoamor para, somente
depois, sentirem os malefícios das energias indignas que trazem dentro de si e
empregarem todo o esforço possível em prol da sua reabilitação como criaturas
divinas.
RESUMO DA PARÁBOLA
Psicoterapeuta
por excelência, Jesus resumiu na parábola dos dois filhos toda a nossa
trajetória evolutiva, demonstrando, com impecável habilidade simbólica, que
possuímos caracteres que nos identificam tanto com o filho mais novo, quanto
com o filho mais velho, a depender da fase evolucional em que nos encontremos.
Enquanto
conferimos prioridade às coisas da matéria, em detrimento das coisas do
Espírito — característica primordial dos habitantes da Terra —, assemelhamo-nos ao filho pródigo que desperdiçou os bens havidos do Pai e entrou em
carência.
Nossa identidade
com o filho mais velho se dá quando nos valemos das máscaras do ego para parecer ser
o que verdadeiramente não somos.
Depreende-se,
portanto, que na parábola Jesus está se referindo às diferentes faces da nossa
personalidade.
Diante de seus
lúcidos ensinamentos, é-nos dado inferir que podemos passar existências
inteiras como o filho gozador e inconsequente; outras tantas sofrendo as
consequências desse desvirtuamento; várias reencarnações arrependidos, buscando
a recuperação; e pior ainda: passar
várias existências como servos aparentemente dedicados.
Dispondo da
faculdade do livre-arbítrio que nos permite escolher nossos caminhos,
precisamos compreender que somos herdeiros de nós mesmos e autores do nosso
destino.
Vigilância
e Oração são os
remédios de que precisamos.
ARQUÉTIPOS EXPOSTOS NA PARÁBOLA
Concluída a
análise pormenorizada da parábola, estudemos os três modelos psicológicos
(arquétipos) revelados por Jesus, muito bem trabalhados e expostos pelo médium Alírio
de Cerqueira Filho.
Arquétipo
do filho gozador - Simboliza todos os seres humanos que utilizam o
livre-arbítrio na prática do desamor em terras longínquas, prejudicando
a si mesmos e aos outros em busca dos prazeres egoicos, malbaratando os
recursos emprestados por Deus para que evoluam, tornando-se, por isso, carentes e sofrendo
as inevitáveis consequências dos seus desvios morais.
Sempre que
enveredamos pela estrada esburacada do desamor geramos um CONFLITO
NECESSÁRIO, pois praticar o desamor macula nossa consciência — o divino em
nós, alimentado pelo amor.
Arquétipo
do filho arrependido, buscando reabilitação – Retrata a segunda fase da vida do
filho perdulário, quando ele se arrepende, “cai em si” e volta para a ”Casa
do Pai”, representando, em linguagem figurada, todos os indivíduos que
despertam sob o chicote da dor, tomam consciência do mal que praticaram,
arrependem-se e resolvem retornar à seara do amor.
É a fase de
superação do CONFLITO NECESSÁRIO pelo trabalho do bem, atitude que
colima a saúde existencial. Mesmo depois de estarmos doentes podemos tomar
consciência da causa da doença e retornarmos ao caminho do bem.
Arquétipo
do filho aparentemente dedicado – Representa os Seres que desenvolvem
o pseudoamor para aparentar uma dedicação que de fato não possuem, tentando,
com isso, enganar ao “Pai” e aos outros. Na realidade, porém, isso gera
apenas o autoengano, afastando-os mais ainda da comunhão que somente o
verdadeiro amor proporciona.
Em assim
agindo, intensificam a doença espiritual, porquanto jogam mais lenha numa
fogueira de chamas altas e crepitantes, tornando muito mais difícil o debelar
do incêndio moral a que deram causa.
Bons estudos e
ótimas reflexões
