Há poucos dias atrás, meu prezado amigo Déda premiou-nos com a narrativa impecável de fatos protagonizados por uma criatura humana tão singular, que até mesmo seu nome de batismo foi absorvido pelo pseudônimo Compadre.
Compadre de todos, independentemente dos tradicionais e enfadonhos vínculos formais que, com larga margem de hipocrisia, configura o mundo social.
Trabalhamos juntos, eu, Déda e Compadre, nas agências do Banco do Nordeste de Simão Dias e Aracaju-Centro.
Nesta última, aportei como Gerente-Geral e nem notei sequer - nem precisava notar - a magnitude do adereço que tinha sido acrescido a minha ficha funcional, dada a extraordinária equipe de assessores diretos que me fora reservada.
Deparei-me, no entanto, com um problema administrativo renitente: a ineficácia dos vários sistemas até então adotados para a expedição das correspondências destinadas à clientela da agência.
As reclamações foram tantas que a Direção Geral do BNB implantou um modelo testado e aprovado em outras unidades operacionais: instalou, no plano térreo, caixas de correspondência individualizadas para seus principais clientes, ou seja, para os responsáveis por mais de 80% dos negócios concretizados pela agência central de Aracaju, cada uma delas contendo em seu frontispício o nome, endereço, CEP e outros dados identificatórios do usuário.
Para nossa desagradável surpresa e inescondível decepção, as reclamações da clientela continuaram após a implantação do novo e moderno mecanismo.
Lembro-me bem que, em plena reunião de comitê na qual nós, administradores da unidade, os mais qualificados, pelo menos teoricamente, para resolver o problema, esquentávamos os miolos para descobrir os porquês do fracasso e, por mais que nos esforçássemos, não conseguíamos arquitetar nenhuma solução concreta, Compadre, ao nos trazer alguns copos d'água e xícaras de café, petulantemente e com seu jeito inimitável de ser atreveu-se a dizer: eu sei como fazer!
Ninguém lhe deu ouvidos, preconceituosamente, em face da flagrante limitação de inteligência que o caracterizava.
Dias depois, contrariado pelo volume cada vez maior de reclamações dos nossos clientes quanto ao não recebimento das correspondências que lhes eram destinadas, lembrei-me do ocorrido quando o Compadre me servia um copo d'água e lhe perguntei:
- Compadre, no dia em que estávamos reunidos em comitê, tentando resolver o velho e enjoado problema da expedição de correspondências, dissestes que tinhas a solução para resolvê-lo. Qual seria, na tua visão, a medida que deveria ser adotada pela administração da agência?
Compadre, com a simplicidade com que sempre revestia seus atos, mesmo os estrambóticos, disse-me simplesmente:
- Seu Gerente, pra que botar tanta coisa na frente das caixinhas dos clientes? Eu e os outros contínuos temos dificuldades para entender o que vocês escrevem de forma tão bonita e findamos colocando as cartas e avisos em locais errados. Se cada cliente tivesse um número e cada caixa contivesse apenas esse número na sua frente a gente não erraria!
Assim foi feito e os problemas desapareceram.
Muitos anos depois, graças ao resgate oportuno de Déda, reexamino a questão e percebo nitidamente a diferença existente entre inteligência (que vem de fora para dentro) e sabedoria (que brota de dentro para fora).
E agradeço a Déda, pelo resgate, e ao Compadre pela lição plena de sabedoria.
