sábado, 16 de fevereiro de 2013

LEMBRANÇAS MUSICAIS DE ITABAIANA: I - AS SERESTAS (2.ª PARTE)

Com o inestancável passar do tempo os velhos seresteiros - Elísio, Filadelfo, Zé de Mídio, Pedro Funileiro - foram sendo chamados, um a um, para tocar e cantar noutras esferas energéticas, desfalcando gradativamente o grupo de seresta, até sua completa extinção.

Único sobrevivente do tão querido regional, resolvi dar prosseguimento às noitadas musicais itabaianenses, agora como violonista, haja vista que de tanto ver Tio Filadelfo tocar violão, e ele o fazia com maestria, findei aprendendo a tanger as cordas desse maravilhoso instrumento, mais adequado do que o cavaquinho para a satisfação dos propósitos seresteiros que me inspiravam.

As serenatas passaram então a contar apenas com os acordes plangentes do meu violão e as interpretações vibrantes e apaixonadas de diversos boêmios serranos, dentre os quais destaco, com louvor, as belas vozes de Chico e Geraldo Alagoano, não raro também acompanhadas pelo sutil dedilhar de ritmistas improvisados em caixas de fósforos e outros pequenos objetos transformados provisoriamente em instrumentos de percussão, revelando-se Alberto Silveira como o parceiro mais constante. 

Reuníamos infalivelmente às noites de sábado em um dos bares que ladeavam a estrada que liga Itabaiana a Frei Paulo, e, após ingerirmos algumas doses generosas de Alcatrão de São João da Barra com mel e limão, preparadas de preferência pelo "barman" Zé Augusto, descíamos a "Avenida" em direção à Praça da Matriz e adjacências, às vezes até acompanhados pelo nosso garçom preferido, quando este conseguia dar uma escapadela do seu local de trabalho para curtir a serenata ao vivo.

Em vários locais tínhamos ouvintes assíduos que nos retribuíam o atendimento de seus pedidos musicais com os mais diversos coquetéis e exóticos tira-gostos: em algumas bodegas onde sempre batíamos o ponto serviam-nos fartas doses de cachaças de alambique; nas padarias de Heleno e Valdez, pães cilindros quentinhos, recheados com manteiga de boa qualidade; na casa de "Pombinho", geralmente a última estação da jornada madrugadora, pratos do delicioso mingau de puba que imortalizou seu elaborador.

Sob a luz inspiradora do luar, percorríamos lentamente as vias públicas da nossa amada cidade-natal, preenchendo o silêncio da noite com notas musicais enternecedoras, produzidas por vozes e violão cuidadosamente harmonizados. 

Em diversas residências, luzes acendiam-se, janelas entreabriam-se, pedidos eram formulados, drinques e guloseimas nos eram oferecidos, dando-nos um eloquente testemunho de que seus habitantes estavam apreciando nosso trabalho. 

Os calorosos manifestos do público-alvo estimulavam-nos, inspiravam-nos e recompensavam-nos  regiamente pelas atividades boêmicas, afugentando o cansaço e afastando a sonolência.   

Findávamos normalmente nossas empreitadas musicais na Praça Fausto Cardoso alegres, etilizados e empanturrados, tirando até, vez por outra, uma gostosa soneca na calçada da Associação Atlética ou da Igreja Matriz.

Quanta saudade...        



                       

     

  

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