sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

LEMBRANÇAS MUSICAIS DE ITABAIANA - AS SERESTAS (3.ª PARTE)


O livro da vida folheou mais algumas páginas e, como de hábito, registrou uma série de episódios que deflagaram agudas transformações no elenco de seresteiros da amada cidade serrana, município interiorano que tão bem me acolheu em seus braços maternais quando para lá fui levado pelos meus pais em tenra idade.

Alberto Silveira e Geraldo Alagoano foram morar e trabalhar em Aracaju; Chico lançou-se corajosamente em carreira-solo, logrando rápido e merecido sucesso.

Remanesci, então, mais uma vez, como o único sobrevivente do grupo musical e não titubeei um minuto sequer em tomar uma grata resolução: as serenatas não podiam acabar! Exterminá-las seria um desrespeito indesculpável para como os nossos fiéis e tradicionais ouvintes e colaboradores. Continuá-las-ia mesmo que para tanto tivesse como companheiro dileto exclusivo o meu amigo violão!

Para minha felicidade, o poder imanente da música comprovou-se irresistível. Logo, logo surgiram os sempre queridos e saudosos parceiros Jorge Marcelo, já falecido, José Carlos Silveira, o "Taba", e "Carlinhos de Margarida", como se costuma dizer em Itabaiana, este se revelando um excelente intérprete das músicas gravadas por Altemar Dutra. 

Para que o nosso único crooner, o Carlinhos, não se cansasse em demasia eu intercalava suas vibrantes interpretações com solos de clássicos da fecunda Música Popular Brasileira, adaptados e harmonizados, quando necessário, à jornada musical noturna. 

Aqui e ali, surgiam artistas de ocasião que, sob indisfarçável inspiração etílica, cantavam suas músicas preferidas, não raro divorciados da tonalidade, do ritmo e até mesmo da harmonia das canções que febrilmente entoavam. Gildo "Titela" e Edésio de "Nélson Tocha", Adalberto e Albertino Araújo, meus irmãos, "Tonho Moringa"...           

Como o dinheiro era muito curto, esvaziávamos os bolsos antes de cada noitada para aferir o pouco que tínhamos. Apurado o pequeno caixa, empregávamos a quantia amealhada na compra do velho composto de Alcatrão de São João da Barra com mel e limão, perfeitamente dosados e misturados pelo nosso barman predileto, o Zé Augusto, irmão de "Lapada", ambos nossos fãs. 

Contávamos, à época, como os valiosos préstimos do "Joel", recentemente falecido, então um moleque simpático que adorava nossa música e sempre nos acompanhava, prestando-se, com invariável prestimosidade, para exercer o cansativo papel de office-boy, posto que passava a noite toda correndo de bar em bar, de bodega em bodega para não nos deixar esfomeados e muito menos de "bico seco".

Recordo-me, com remorso, que numa dessas serenatas encenamos uma brincadeira engraçada, mas um tanto quanto desumana. Ao alvorecer do domingo, após ingerir fartas doses de bebida, sobretudo de uma aguardente fabricada no alambique de Vivaldo, estávamos na Praça da Matriz, ponto final obrigatório de nossas jornadas, quando percebemos que um dos nossos acompanhantes ocasionais, o "Pinguim", um marceneiro que exercia seu ofício na "Rua da Vitória", em Itabaiana, estava adormecido e completamente embriagado. 

Colocamo-lo, então, em um automóvel e o conduzimos até a cidade de Campo do Brito, deixando-o lá, deitado na calçada da igreja. Como o próprio "Pinguim" humildemente nos relatou dias depois, ao ser acordado pelo barulho das pessoas que iam assistir a missa das nove, ainda zonzo e sob o efeito desequilibrante da ingestão excessiva de bebidas alcoólicas, caminhou na suposta direção da casa de "Chico de Miguel", localizada na esquina confluente da "Rua da Vitória" com a "Rua das Flores", na cidade serrana.

Perplexo, observou que a casa, a rua, a esquina e todos os demais pontos de referência que procurava haviam desaparecido misteriosamente; e mais: que a praça e a igreja da matriz haviam encolhido significativamente...

Somente com o passar de bons minutos é que "Pinguim" tomou coragem para abordar alguns transeuntes acerca do seu paradeiro. descobrindo então que tinha sido vítima de uma brincadeira incomum, que não estava em Itabaiana, mas, sim, em Campo do Brito. 

Os fatos rememorados constituem lembranças imorredouras de uma época doce e terna na qual mesmo brincadeiras e molecagens irresponsáveis, quanto a que acabamos de relembrar, não eram premeditadas para prejudicar quem quer que fosse, não continham dolo. Visavam tão-somente divertir seus idealizadores com a futura "gozação" do indivíduo-alvo, mesmo quando extrapolavam as fronteiras do razoável, como no caso remontado.

Éramos felizes e, diferentemente do jargão poético, sabíamos que o éramos! 



   


    

   




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