No início dos anos 70 do século passado, o Setor de Crédito Rural da Agência do Banco do Nordeste em Simão Dias era chefiado por Carlos Alberto Déda, um ícone precioso de moralidade, honradez, humildade e competência.
Zeloso e organizado, meu ex-chefe e desde muito estimado amigo Déda tinha como uma de suas maiores preocupações expedir avisos de vencimento aos agropecuaristas que operavam na unidade benebeana simãodiense, a eles endereçados com, pelo menos, 30 (trinta) dias de antecedência do vencimento parcial ou total de suas obrigações creditícias.
A expedição de tais lembretes constituía-se, pois, uma atividade rotineira da agência, e abrangia toda a clientela do setor rural, sem exceção.
Como em todo e qualquer complexo humano, o portfólio de destinatários dos avisos continha figuras exponenciais da sociedade local, como, por exemplo, Dr. Sebastião Celso de Carvalho e Dr. Manoel Salustino Neto.
Pois bem.
Avizinhando-se o vencimento de uma operação de custeio pecuário de responsabilidade do Dr. Salustino, um aviso de vencimento lhe foi expedido, como de praxe.
Numa bela manhã, em que o Sol brilhava intensamente no horizonte e energizava todos os componentes universais, tão logo as portas da agência foram descerradas eis que a figura austera e admirada de Dr. Salustino preenche a parte fronteiriça do bureau de Déda, revelando em sua face, de forma inequívoca, uma grande contrariedade.
Com educação que lhe é imanente, Déda procurou de logo aferir o que se passava com seu cliente - um dos mais importante do setor que chefiava -, descobrindo, de forma surpreendente e aflitiva, que Dr. Salustino não apenas queria liquidar a operação de crédito avisada, como também pretendia encerrar suas atividades junto ao Banco do Nordeste, profundamente aborrecido com a "cobrança" que lhe havia sido endereçada, absolutamente desnecessária, em seu modo de pensar de cliente proeminente, para um homem de sua envergadura que, em hipótese alguma, esquecer-se-ia de adimplir uma obrigação de natureza financeira.
Com humildade, paciência e elevado senso intelecto-moral, Déda explicou ao cliente enfurecido o porquê da remessa do aviso, conseguindo reverter o quadro e preservar o cliente.
Todos nós que compúnhamos a briosa equipe do setor rural acompanhamos o imprevisível episódio e dele colhemos memoráveis lições, mormete a de que no universo das idiossincrasias humanas o mesmo símbolo - na espécie, o aviso de vencimento - tanto pode representar uma deferência quanto pode assumir feição adversa para cada pessoa em particular.
Filosoficamente, Déda, eu e os demais companheiros de ofício aprendemos que a mesma espada se presta para servir como arma de guerra ou para, repousando docemente sobre os ombros do beneficiário, sagrá-lo cavaleiro.
Em minha percepção, o aviso de vencimento que inspira este simples manifesto foi, a um só tempo, um espinho doloroso para o destinatário, dada a interpretação equivocada que lhe deu, e uma flor doce e perfumada para o meu caro amigo Déda.
Um e outro, espinho e flor, ligados à mesma haste!
