terça-feira, 16 de abril de 2013

UMA LEITURA ESTILIZADA DA FÁBULA DAS DUAS RÃS

Duas rãs, uma materialista e outra espiritualista, caíram desastradamente dentro de uma lata que continha leite líquido até 1/4 de sua altura.

Por natural instinto de sobrevivência, começaram a nadar, debatendo-se dentro do recipiente metálico que as aprisionavam. 

A rã materialista, coerente com sua descrença na vida pós-morte, preparou-se para o triste e doloroso desenlace por afogamento. Afinal, pensava, tudo se extinguiria com o extermínio do corpo físico, até mesmo a lembrança de que existira. 

A rã espiritualista, guardando também fidelidade aos princípios básicos da doutrina que abraçara, decidiu lutar pela sobrevida enquanto suas forças o permitissem. Idealizou - e sugeriu a sua companheira - que permanecessem nadando na superfície do leite e, de vez em quando, saltassem em direção à borda da lata, tentando nela se agarrarem.

Aceita a sugestão, ambas iniciaram o cansativo procedimento: nadavam, nadavam e, periodicamente, saltavam rumo a parte superior do vasilhame, não logrando, no entanto, alcançá-la, escorregando pelas laterais da lata e recaindo no leite.

Com o advento inevitável da exaustão, a rã materialista deu por finda sua luta: despediu-se da companheira, juntou as duas patinhas dianteiras, afundou e morreu afogada.

A rã espiritualista, conquanto também estivesse exausta, decidiu tentar um derradeiro salto. Após boiar mais um pouco na superfície leitosa para arrebanhar suas forças derradeiras, saltou em busca da liberdade.

E, surpreendentemente, obteve o êxito desejado, alcançando com relativa facilidade a borda da lata, nela se agarrando e alçando o corpo cansado à superfície.

Ainda apoiada na borda do vasilhame, contemplou o Universo de forma inusitada, nele visualizando beleza, equilíbrio e harmonia transcendentais, a mais viva comprovação da existência de uma inteligência superior.

Deslumbrada com a visão celestial, resolveu dar uma última olhadela ao interior da antiga prisão metálica para satisfazer uma curiosidade surgida em sua tela mental: como conseguira empreender o salto salvador e alcançar a extremidade da lata exatamente no momento em que estava mais débil e fragilizada?

Deparou-se, então, com uma realidade inimaginada: de tanto nadarem, saltarem, baterem e agitarem o leite, ela e sua extinta companheira haviam provocado uma mudança significativa de estado no leite. Este já havia, em parte, se transformado em manteiga, criando, por assim ser, a crosta superficial que servira de apoio para o salto libertador.

Vários conceitos morais podem ser extraídos desta fábula. Dentre eles, prefiro o que foi elaborado pelo médium Divaldo do Prado Franco:  

"Mesmo que você esteja na maior dificuldade, trabalhe o leite do problema na manteiga da esperança e dê o seu salto, que você tendo um pouco de apoio, resultado do seu esforço, logrará o êxito que necessita".  



  

domingo, 7 de abril de 2013

SAUDADE...


Há alguns meses venho me dedicando à retrospecção de importantes acontecimentos por mim vivenciados na atual reencarnação ou experiência biológica.

Ao longo de todo o processo de resgate histórico tenho sido acompanhado por uma velha companheira - a saudade - malgrado em momento algum a tenha convidado para compartilhar das minhas memórias.

Sua presença constante, embora abstrata, motivou-me a aprofundar a sonda das investigações no intuito de melhor compreendê-la, de conhecer o mais realisticamente possível o seu significado.

Sob enfoque lendário, o termo saudade foi criado pelos antigos navegadores portugueses para definir a melancolia causada pela lembrança da terra natal, dos entes queridos.

As luzes etimológicas atribuem sua origem ao latim solitas, solitatis (solidão), cuja forma arcaica latina era soedade, soidade

Os lexicólogos, por sua vez, conferem ao substantivo feminino saudade o significado de "lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado"; "pesar, mágoa que essa privação causa". 

Lenda, etimologia e dicionaristas aquiescem, portanto, quanto à existência de um liame inquebrantável entre solidãosaudade

Far-se-á então possível, a partir desses insights, definir-se o que é saudade?

A máxima "omni definition periculosa est" (toda definição é perigosa), insculpida pelos antigos romanos, adverte-nos da gravidade do intento. 

Incursionando pelo campo poético-musical, deparei-me com o ardor lírico de Chocolate e Elano de Paula que, em 1950, compuseram Canção de Amor, o belo e melancólico samba-canção cuja interpretação primorosa imortalizou Elizeth Cardoso. Eis a letra:

"Saudade torrente de paixão
Emoção diferente
Que aniquila a vida da gente
Uma dor que eu não sei de onde vem
Deixaste meu coração vazio
Deixaste a saudade
Ao desprezares aquela amizade
Que nasceu ao chamar-me meu bem
Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de Amor, saudade!
Saudade".


Persiste, como se vê, o vínculo indissolúvel das duas irmãs siamesas solidãosaudade

Já inclinado a finalizar a tarefa a que me lancei, lembrei-me de um conto ancestral advindo da Grécia Antiga. 

Diz-nos ele que Sócrates, Platão, Aristóteles e outros discípulos estavam há várias horas reunidos na Ágora principal de Athenas buscando exatamente uma definição categórica para saudade. As numerosas formulações apresentadas pelos sábios, permeadas de beleza e rasgos filosóficos, tinham sido, todas elas, objeto de agudas críticas e insuperáveis divergências conceituais. 

Física e mentalmente exaustos, os filósofos gregos resolveram consultar a primeira criança que por ali passasse sobre o tema sob controvérsia. 

Eis que pouco tempo depois uma menina de aproximadamente sete anos adentra no espaço. Eufóricos,  os sábios lhe perguntam:

- Menina, o que entendeis por saudade?

E a menina, com a pureza e a ingenuidade que caracterizam as crianças, respondeu-lhes sem vacilações ou titubeios: 

- Saudade é a vontade de ver de novo! 

Será preciso dizer mais alguma coisa? Se o for, não será através deste apenas esforçado estudioso das problemáticas humanas! 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

REMINISCÊNCIAS MUSICAIS CICERODANTENSES II

No curto período que estive vinculado à agência do BNB em Cícero Dantas(BA), ou seja, de junho de 1968 a agosto de 1969, interagi pessoal, profissional e musicalmente com figuras humanas notáveis, cuja luminosidade intrínseca impediu, impede e sempre impedirá que a noite do tempo as apague, mesmo que parcialmente, das minhas tão saudosas e felizes memórias.
 
Dentre eles cito, à guisa de exemplo: Manoel Emílson, Marcos Manoel, Juventino Peixoto, Pedro Morais, Ubiratan (Bira), Botinha e José Lima Palmeira.
 
Com este último - o Palmeira - também violonista, vivenciei inapagáveis momentos musicais  no "Bigorrilho", no Bar de Carlitos, no Posto Mangueira, no Alto do Vieira e onde mais nós e nossos violões se encontrassem.
 
Com estilo bem diferente do Bira - um intérprete extraordinário de canções românticas - Palmeiras adorava cantar as melodias compostas pela dupla Vinícius & Toquinho, sobretudo as pérolas musicais gravadas no disco "10 Anos de Toquinho & Vinícius".
 
Gravo no recôndito das minhas recordações a interpretação alegre e vibrante que Palmeira fazia do "Samba da Volta", e, para revivê-lo, ouço o disco e/ou aconchego no peito o meu velho amigo violão, extraindo de suas cordas de nylon os belos acordes rememorativos. 
 
Tudo me faz muito bem, embora seja comum a presença de algumas lágrimas em meus olhos, talvez para também recordarem daqueles abençoados saraus musicais...
 
Quem sabe?
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

REMINISCÊNCIAS MUSICAIS CICERODANTENSES

Aprovado quase simultaneamente em concursos realizados pelos Banco do Brasil e  Banco do Nordeste, assumi neste último o posto de assistente de escritório na agência baiana de Cícero Dantas, no dia 19 de junho de 1968.
 
Era então o famoso guitarra-solo do conjunto Os Nômades, da cidade de Itabaiana(SE), composto por duas guitarras (base e solo), baixo, crooner e bateria, como era comum na época áurea da Jovem Guarda.
 
Contudo, o destaque conquistado nos meios musicais intra e extra fronteiras sergipanas não havia em nada afetado o amor devotado às serenatas desde os oito anos de idade, quando, ao cavaquinho, acompanhava meu pai Elísio e seu irmão Filadelfo, dois seresteiro natos, aquele cantor e este violonista excelentes.       
 
Naquela época, Cícero Dantas dispunha de infraestrutura precária que, no campo energético, resumia-se a uma iluminação elétrica produzida por um gerador das seis às dez horas da noite, ou algo parecido.
 
O que fazer após cada expediente bancário? O bar de Carlito era a opção preferida dos funcionários do BNB, local onde rolavam whiskies com Coca-Cola e outras combinações exóticas ditadas não pelo mau gosto de seus usuários. mas, sim, pela falta de outras alternativas etílicas.
 
Foi nesse cenário aparentemente inóspito - e apenas aparentemente ruim - que tive a grata e imorredoura satisfação de ouvir e acompanhar ao violão a mais bela das vozes que ouvi ao longo de toda a minha longa e multifacetada caminhada musical.
 
Refiro-me ao colega e amigo Ubiratan Alves Mendes, cuja interpretação de Primavera até hoje considero insuperável. E olhe que de ordinário Ubiratan cantava e eu o  acompanhava dentro de um jipe que ele utilizava no exercício de suas funções de fiscal orientador do BNB, naquele tempo um respeitável banco de desenvolvimento regional e hoje... (prefiro não comentar!) 
 
O epílogo não poderia ser mais eloquente do que a lembrança de que finalizávamos nossa jornada musical no "entroncamento", deliciando-nos com aves grelhadas ao tempero sonoro inigualável de belas canções do cancioneiro popular brasileiro, magistralmente interpretadas por Ubiratan e, porque não dizê-lo, bem acompanhadas por mim.
 
Com razão, in casu, o poeta quanto insculpiu a primeira parte do adágio "éramos felizes"; não se nos aplica, entretanto, a segunda parte de seu aforismo, ou seja, o "e não sabíamos", pois tínhamos plena certeza da felicidade que desfrutávamos naquelas doces, saudosas e inesquecíveis noites de seresta!!!    
 
    

A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS INTRODUÇÃO As parábolas de Jesus entesouram ensinamentos de inestimável valia para o nosso desenvolvimen...