quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

AS IMPLICAÇÕES DE UM AVISO DE VENCIMENTO

No início dos anos 70 do século passado, o Setor de Crédito Rural da Agência do Banco do Nordeste em Simão Dias era chefiado por Carlos Alberto Déda, um ícone precioso de moralidade, honradez, humildade e competência.

Zeloso e organizado, meu ex-chefe e desde muito estimado amigo Déda tinha como uma de suas maiores preocupações expedir avisos de vencimento aos agropecuaristas que operavam na unidade benebeana simãodiense, a eles endereçados com, pelo menos, 30 (trinta) dias de antecedência do vencimento parcial ou total de suas obrigações creditícias.

A expedição de tais lembretes constituía-se, pois, uma atividade rotineira da agência, e abrangia toda a clientela do setor rural, sem exceção.

Como em todo e qualquer complexo humano, o portfólio de destinatários dos avisos continha figuras exponenciais da sociedade local, como, por exemplo, Dr. Sebastião Celso de Carvalho e Dr. Manoel Salustino Neto. 

Pois bem. 

Avizinhando-se o vencimento de uma operação de custeio pecuário de responsabilidade do Dr. Salustino, um aviso de vencimento lhe foi expedido, como de praxe.

Numa bela manhã, em que o Sol brilhava intensamente no horizonte e energizava todos os componentes universais, tão logo as portas da agência foram descerradas eis que a figura austera e admirada de Dr. Salustino preenche a parte fronteiriça do bureau de Déda, revelando em sua face, de forma inequívoca, uma grande contrariedade.  

Com educação que lhe é imanente, Déda procurou de logo aferir o que se passava com seu cliente  - um dos mais importante do setor que chefiava -, descobrindo, de forma surpreendente e aflitiva, que Dr. Salustino não apenas queria liquidar a operação de crédito avisada, como também pretendia encerrar suas atividades junto ao Banco do Nordeste, profundamente aborrecido com a "cobrança" que lhe havia sido endereçada, absolutamente desnecessária, em seu modo de pensar de cliente proeminente, para um homem de sua envergadura que, em hipótese alguma, esquecer-se-ia de adimplir uma obrigação de natureza financeira. 

Com humildade, paciência e elevado senso intelecto-moral, Déda explicou ao cliente enfurecido o porquê da remessa do aviso, conseguindo reverter o quadro e preservar o cliente. 

Todos nós que compúnhamos a briosa equipe do setor rural acompanhamos o imprevisível episódio e dele colhemos memoráveis lições, mormete a de que no universo das idiossincrasias humanas o mesmo símbolo - na espécie, o aviso de vencimento - tanto pode representar uma deferência quanto pode assumir feição adversa para cada pessoa em particular. 

Filosoficamente, Déda, eu e os demais companheiros de ofício aprendemos que a mesma espada se presta para servir como arma de guerra ou para, repousando docemente sobre os ombros do beneficiário,  sagrá-lo cavaleiro.

Em minha percepção, o aviso de vencimento que inspira este simples manifesto foi, a um só tempo, um espinho doloroso para o destinatário, dada a interpretação equivocada que lhe deu, e uma flor doce e perfumada para o meu caro amigo Déda. 

Um e outro, espinho e flor, ligados à mesma haste!     

     

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

TERRA; MUNDO DE PROVAS E EXPIAÇÕES


Sempre que ocorre uma tragédia coletiva, quanto a que recentemente ceifou a vida de 231 pessoas no incêndio de uma boate em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, nós, seres humanos imperfeitos em abençoado processo de evolução intelecto-moral, formulamos, mesmo que apenas intimamente, uma coletânea de perguntas angustiosas: por que sucedeu o terrível acontecimento? por que algumas pessoas foram salvas ao desistirem, no último instante, de participarem do espetáculo ou por não conseguirem adquirir o tão desejado ingresso, ao passo que outras feneceram de forma tão drástica? 

Não bastassem esses questionamentos atávicos, um outro, bem mais grave, posto que flagrantemente blasfêmico, preenche a nossa tela mental: Como é possível que Deus o tenha permitido?

Para a maioria das criaturas essas expiações coletivas representam um enigma insolúvel, em face do desconhecimento dos mecanismos que compõem a Justiça Divina, sobretudo no que concerne à LEI DE CAUSA E EFEITO, dando margem a que a fé vacile, arrefeça e abra espaço para a eclosão da revolta, do desespero, da descrença. 

No livro Cartas e Crônicas, ditado em 1966 por Humberto de Campos (Irmão X) e psicografado por Chico Xavier, colhemos a seguinte lição esplendorosa sobre as provações e expiações coletivas:

"A TRAGÉDIA DO CIRCO

Naquela noite, da época recuada de 177, o “concilium” de Lião regurgitava de povo.

Não se tratava de nenhuma das assembleias tradicionais da Gália, junto ao altar do Imperador, e sim de compacto ajuntamento.

Marco Aurélio reinava, piedoso, e embora não houvesse lavrado qualquer rescrito em prejuízo maior dos cristãos, permitira se aplicassem na cidade, com o máximo rigor, todas as leis existentes contra eles.

A matança, por isso, perdurava, terrível.

Ninguém examinava necessidades ou condições. Mulheres e crianças, velhos e doentes, tanto quanto homens válidos e personalidades prestigiosas, que se declarassem fiéis ao Nazareno, eram detidos, torturados e eliminados sumariamente.

Através do espesso casario, a montante da confluência do Ródano e do Saône, multiplicavam-se prisões, e no sopé da encosta, mais tarde conhecida como colina de Fourviére, improvisara-se grande circo, levantando-se altas paliçadas em torno de enorme arena.

As pessoas representativas do mundo lionês eram sacrificadas no lar ou barbaramente espancadas no campo, enviando-se os desfavorecidos da fortuna, inclusive grande massa de escravos, ao regozijo público.

As feras pareciam agora entorpecidas, após massacrarem milhares de vítimas, nas mandíbulas sanguinolentas. Em razão disso, inventavam-se tormentos novos.

Verdugos inconscientes ideavam estranhos suplícios.

Senhoras cultas e meninas ingênuas eram desrespeitadas antes que lhes decepassem a cabeça, anciães indefesos viam-se chicoteados até a morte. Meninos apartados do reduto familiar eram vendidos a mercadores em trânsito, para servirem de alimárias domésticas em províncias distantes, e nobres senhores tombavam assassinados nas próprias vinhas.

Mais de vinte mil pessoas já haviam sido mortas.

Naquela noite, a que acima nos referimos, anunciou-se para o dia seguinte a chegada de Lúcio Galo, famoso cabo de guerra, que desfrutava atenções especiais do Imperador por se haver distinguido contra a usurpação do general Avídio Cássio, e que se inclinava agora a merecido repouso.  

Imaginaram-se, para logo, comemorações a caráter.

Por esse motivo, enquanto lá fora se acotovelavam gladiadores e jograis, o patrício Álcio Plancus, que se dizia descendente do fundador da cidade, presidia a reunião, a pedido do Propretor, programando os festejos.

- Além das saudações, diante dos carros que chegarão de Viena – dizia, algo tocado pelo vinho abundante -, é preciso que o circo nos dê alguma cena de exceção... O lutador Setímio poderia arregimentar os melhores homens; contudo, não bastaria renovar o quadro de atletas...

- A equipe de dançarinas nunca esteve melhor – aventou Caio Marcelino, antigo legionário da Bretanha que se enriquecera no saque.

- Sim, sim... – concordou Álcio – instruiremos Musônia para que os bailados permaneçam à altura...

- Providenciaremos um encontro de auroques – lembrou Pérsio Níger.

- Auroques! Auroques!... – clamou a turba em aprovação.

    - Excelente lembrança! – falou Plancus em voz mais alta – mas, em consideração ao visitante, é imperioso acrescentar alguma novidade que Roma não conheça...

Um grito horrível nasceu da assembléia;

- Cristãos às feras! cristãos às feras!

Asserenado o vozerio, tornou o chefe do conselho:

- Isso não constitui novidade! E há circunstâncias desfavoráveis. Os leões recém-chegados da África estão preguiçosos... Sorriu com malícia e chasqueou:

- Claro que surpreenderam, nos últimos dias, tentações e viandas que o própio Lúculo jamais encontrou no conforto de sua casa...

Depois das gargalhadas gerais, Álcio continuou, irônico:

- Ouvi, porém, alguns companheiros, ainda hoje, e apresentaremos um plano que espero resulte certo. Poderíamos reunir, nesta noite, aproximadamente mil crianças e mulheres cristãs, guardando-as nos cárceres... E, amanhã, coroando as homenagens, ajuntá-las-emos na arena, molhada de resinas e devidamente cercada de farpas embebidas em óleo, deixando apenas passagem estreita para a liberação das mais fortes. Depois de mostradas festivamente em público, incendiaremos toda a área, deitando sobre elas os velhos cavalos  que já não sirvam aos nossos jogos... Realmente, as chamas e as patas dos animais formarão muitos lances inéditos...

- Muito bem! Muito bem! – reuniu a multidão, de ponta a ponta do átrio.

- Urge o tempo – gritou Plancus – e precisamos do concurso de todos... Não possuímos guardas suficientes.

E erguendo ainda mais o tom de voz:

- Levante a mão direita quem esteja disposto a cooperar.

Centenas de circunstantes, incluindo mulheres robustas, mostraram destra ao alto, aplaudindo em delírio.

Encorajado pelo entusiasmo geral, e desejando distribuir a tarefa com todos os voluntários, o dirigente da noite enunciou, sarcástico e inflexível:

- Cada um de nós traga um... Essas pragas jazem escondidas por toda a parte... Caçá-las e exterminá-las é o serviço da hora...

Durante a noite inteira, mais de mil pessoas, ávidas de crueldade, vasculharam residências humildes e, no dia subsequente, ao Sol vivo da tarde, largas filas de mulheres e criancinhas, em gritos e lágrimas, no fim de soberbo espetáculo, encontraram a morte, queimadas nas chamas alteadas ao sopro do vento, ou despedaçadas pelos cavalos em correria.
   
Quase dezoito séculos passaram sobre o tenebroso acontecimento... Entretanto, a justiça da Lei, através da reencarnação, reaproximou todos os responsáveis, que, em diversas posições de idade física, se reuniram de novo para dolorosa expiação, a 17 de dezembro de 1961, na cidade brasileira de Niterói, em comovedora tragédia num circo".

Como nos ensina o amado Mestre Jesus, "não devemos julgar para não sermos julgados, pois a cada um será dado conforme suas obras".

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

MAIS UMA DO BOTINHA...

Vista aérea de Cícero Dantas(BA)

Pedro Nascimento, o inesquecível e saudoso Botinha, sempre fez questão de demonstrar sua grande satisfação em pertencer ao quadro funcional do Banco do Nordeste, do qual envergava o impecável uniforme de contínuo com o mesmo brilho e fulgor com que, nos dias de festa, envergava o traje de gala da banda de música de Cícero Dantas, como bem recorda o amigo Ubiratan.

A alegria e a consequente espirituosidade que ostentava permanentemente tornaram-no uma figura humana muito benquista em todos os cenários em que atuava pessoal, musical ou profissionalmente, granjeando-lhe amizades imorredouras.

Sua têmpera filosófica e vocação espiritualista afastavam-no irremediavelmente dos atos e fatos comuns do cotidiano, despreocupando-o quanto às questões relacionadas ao planejamento e equilíbrio financeiro. Por isso, as contas mensais do Botinha nunca fechavam: sobravam dias, faltava dinheiro!!!

Num desses aperreios, Botinha procurou o gerente da agência e lhe propôs a concessão de férias antecipadas, comprometendo-se, inclusive, a continuar trabalhando normalmente durante o período de descanso, deixando bem claro que o único propósito da demanda era produzir caixa para satisfazer alguns credores impacientes.

O gerente, após ouvir-lhe pacientemente os reclamos, disse-lhe, com inescondível tristeza, que as normas em vigor no BNB não permitiam o atendimento do pleito antecipatório, não lhe restando outra alternativa senão indeferi-lo.

Botinha, sem perder uma nesga do belo sorriso que sempre estampava em seu rosto, formulou a seguinte pergunta:

- Doutor ..., o senhor já viu um negro ficar branco?

- Não, respondeu o gerente com naturalidade.

- Pois então aprove meu pedido!

Diante de tão sólido argumento, as férias antecipadas foram concedidas tal como solicitadas...   

              

   

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

DE QUE ERA MESMO O CALDINHO?...

Gerenciei a agência do Banco do Nordeste em Arapiraca de 1978 a 1983, quando a economia local se destacava pela farta exportação de folhas de fumo para Cuba, França, Itália, Estados Unidos e outras nações.

Contava-se, então, um caso deveras hilário e interessante.

Um ex-prefeito arapiraquense, eleito deputado federal, viajou pela primeira à Brasília e, em lá chegando, foi convidado por outros parlamentares para um jantar de confraternização num dos restaurantes mais luxuosos da capital federal.

Frequentador assíduo de ambientes mais simples, em que lhe era servido o tão apreciado churrasco de porco, boi e galeto, o representante do povo alagoano estampou de chofre a sua fascinação pelo luxo e requinte da casa selecionada por seus pares.

Nervoso, não lhe foi dado perceber que os demais fregueses utilizavam o líquido perfumado contido numa bela tigela de porcelana colocada à frente de cada qual para higienizarem suas mãos. E, coitado, acostumado a tomar seus aperitivos com caldinhos de feijão enriquecidos com pedacinhos de jabá, não pestanejou: ingeriu todo o conteúdo do recipiente que lhe fora destinado.  

Seus amigos - se é que se lhe podem atribuir esse apelido - entreolharam-se surpresos e estupefatos, esboçaram sorrisos habilmente disfarçados, mas nada disseram.

Quando o maitre compareceu à mesa para colher opiniões, sugerir cardápios e anotar pedidos, o neófito deputado alagoano, enxugando os lábios ainda umedecidos, perguntou-lhe:    

-"De que era mesmo o caldinho?"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

SOMOS A NOSSA MENTE!


Por atavismo, o ser humano tende a considerar milagre toda ocorrência cuja causa lhe seja desconhecida.

Para Isaac Newton (1643-1727), “o milagre é o resultado do uso de leis desconhecidas”Albert Einstein (1879-1955), corroborando com seu antecessor, assentou que “o milagre é a ocorrência de um fato cujo mecanismo nós ignoramos”. 

Divaldo Franco (1927), em momento de grande inspiração, apostilou que se retroagíssemos à década de 1920 e mostrássemos um smartphone aos habitantes daquela época, fatalmente eles o considerariam um milagre.

Coube a Física Quântica e a Neurociência comprovarem cientificamente que "o milagre é o efeito natural da aplicação da lei produtora dos fenômenos afetos às micropartículas atômicas".

Dois renomados cientistas da Universidade de Harvard, os doutores David Joseph Boom (1917-1992) e  Stewart Wolf (1914-2005),  descobriram que nossos neurônios produzem um hormônio chamado neuropeptídio e que as sinapses por ele produzidas são o resultado de fenômenos eletroquímicos.

Nos anos 70, do século passado, a ciência descobriu que possuímos 64 espécies desses neurocomunicadores, sendo mais conhecidos a serotonina, a noradrenalina, a dopamina e a endorfina.

A depressão (do latim depremere: puxar para baixo) — o mal maior do século em curso — decorre essencialmente da carência de serotonina e noradrenalina, substâncias produzidas na parte posterior do cérebro e responsáveis pelas sensações de prazer, alegria, bem-estar, felicidade.

Diante dessa realidade científica, os apaixonados deveriam reformular suas declarações de amor, substituindo o clássico e inconsequente “eu te amo de todo coração!" (o amor não pode nascer de um músculo oco), pelo moderno e consequente eu te amo com todas as minhas serotoninas e noradrenalinas!

Os mencionados cientistas de Harvard também descobriram que quando nós amamos, perdoamos, estamos alegres, cultivamos, enfim, bons sentimentos, nosso cérebro, além daquelas 64 substâncias, produz uma vibração de natureza fóton. Em outros termos: produz uma micropartícula energética que é absorvida pelo sistema nervoso central, que a transfere para o sistema endócrino, e este a emprega no fortalecimento do sistema imunológico. E nós gozamos de saúde.

A contrario sensu, quando nós odiamos, guardamos mágoas, represamos rancores ou qualquer outra modalidade de ressentimento, nosso cérebro produz uma micropartícula energética desarticuladora chamada de elétron, que é absorvida pelo sistema nervoso central, transferida para o sistema endócrino e aplicada no enfraquecimento do sistema imunológico. E nós adoecemos.

A relevância dessas descobertas provocou o surgimento de uma nova ciência: a psiconeuroendocrinoimunologia, elaboradora do seguinte esquema fenomenológico: 

MENTE Þ SISTEMA NERVOSO CENTRAL Þ SISTEMA ENDÓCRINO Þ SISTEMA IMUNOLÓGICO Þ SAÚDE OU DOENÇA.     

A irrefreável evolução da ciência enfim comprova que podemos preservar nossa saúde ou nos curar das enfermidades que assolam nossos corpos com o poder da mente. 

Ou seja, constata a veracidade das palavras ditas pelo Mestre Jesus há mais de 2.000 anos: "se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: Transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível. (S. MATEUS, cap. XVII, vv. 14 a 20).  


domingo, 6 de janeiro de 2013

BOTINHA: UMA PÉROLA NEGRA INCRUSTADA NO BNB

No final da década de 60, do século passado, a agência do Banco do Nordeste em Cícero Dantas(BA) era gerenciada pelo dileto amigo Manoel Emílson Fagundes de Moraes, e contava em seus quadros com funcionários altamente qualificados tais como: Marcos Manoel de Almeida, Juventino Peixoto de Lacerda, Pedro Morais de Oliveira, Osório de Carvalho Melo e Ubiratan Alves Mendes.

O município baiano não dispunha, à época, de infraestrutura básica, deficiência substantiva à qual atribuo o entrelaçamento fraternal dos benebeanos que compunham a unidade operacional em vitrine, que costumavam sufocar suas doloridas e saudosas lembranças no Bar de Carlito ao término do expediente vespertino.

Foi nela que tive a ventura de ingressar no BNB no dia 19 de junho de 1968, mais precisamente no Setor de Crédito Rural comandado por Juventino, segmento de maior representatividade da agência, e conheci a extraordinária figura humana conhecida como Botinha, um filósofo nato e gozador sutil.

Naqueles tempos, a agência do Banco do Brasil mais próxima ficava na cidade de Ribeira do Pombal, a 31 km de distância, aproximadamente, acessível por estrada de péssima qualidade, mormente quando chovia com maior intensidade. 

Era a essa unidade do BB que a agência do BNB recorria tradicionalmente para suprir ou recompor a reserva de numerário controlada pela tesouraria, cabendo, quase sempre, ao Botinha ir buscar o suprimento em um velho jipe de sua propriedade.
   
Recordo-me que às vésperas de uma dessas perigosas empreitadas perguntei-lhe, preocupado:

- Botinha, não tens medo de ir buscar tanto dinheiro em um jipe velho e por estrada tão esburacada?

O filósofo-gozador não titubeou em esboçar a resposta abaixo reproduzida em termos mais ou menos precisos, dada sua longevidade, a qual agasalha em si mesma a grandiosidade da figura humana que a concebeu e pronunciou:

- Doutor, quem diabo vai imaginar que um negro velho, trajando uma roupa velha (ele, antes de viajar, despia-se da indumentária que o identificava como servente do BNB) e dirigindo um jipe velho e sujo, esteja levando tanto dinheiro?  Tem maior segurança do que essa, doutor?

A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS INTRODUÇÃO As parábolas de Jesus entesouram ensinamentos de inestimável valia para o nosso desenvolvimen...