Sempre que ocorre uma tragédia coletiva, quanto a que recentemente ceifou a vida de 231 pessoas no incêndio de uma boate em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, nós, seres humanos imperfeitos em abençoado processo de evolução intelecto-moral, formulamos, mesmo que apenas intimamente, uma coletânea de perguntas angustiosas: por que sucedeu o terrível acontecimento? por que algumas pessoas foram salvas ao desistirem, no último instante, de participarem do espetáculo ou por não conseguirem adquirir o tão desejado ingresso, ao passo que outras feneceram de forma tão drástica?
Não bastassem esses questionamentos atávicos, um outro, bem mais grave, posto que flagrantemente blasfêmico, preenche a nossa tela mental: Como é possível que Deus o tenha permitido?
Para a maioria das criaturas essas expiações coletivas representam um
enigma insolúvel, em face do desconhecimento dos mecanismos que compõem a Justiça Divina, sobretudo no que concerne à LEI DE CAUSA E EFEITO, dando margem a que a fé vacile, arrefeça e abra espaço para a eclosão da revolta, do
desespero, da descrença.
No livro Cartas e Crônicas, ditado em 1966 por Humberto de Campos (Irmão X) e psicografado por Chico Xavier, colhemos a seguinte lição esplendorosa sobre as provações e expiações coletivas:
"A TRAGÉDIA DO CIRCO
Naquela noite, da época recuada de 177, o “concilium” de
Lião regurgitava de povo.
Não se tratava de nenhuma das assembleias tradicionais da
Gália, junto ao altar do Imperador, e sim de compacto ajuntamento.
Marco Aurélio reinava, piedoso, e embora não houvesse
lavrado qualquer rescrito em prejuízo maior dos cristãos, permitira se aplicassem na
cidade, com o máximo rigor, todas as leis existentes contra eles.
A matança, por isso, perdurava, terrível.
Ninguém examinava necessidades ou condições. Mulheres e
crianças, velhos e doentes, tanto quanto homens válidos e personalidades prestigiosas,
que se declarassem fiéis ao Nazareno, eram detidos, torturados e eliminados
sumariamente.
Através do espesso casario, a montante da confluência do
Ródano e do Saône, multiplicavam-se prisões, e no sopé da encosta, mais tarde conhecida
como colina de Fourviére, improvisara-se grande circo, levantando-se altas
paliçadas em torno de enorme arena.
As pessoas representativas do mundo lionês eram sacrificadas
no lar ou barbaramente espancadas no campo, enviando-se os desfavorecidos da
fortuna, inclusive grande massa de escravos, ao regozijo público.
As feras pareciam agora entorpecidas, após massacrarem
milhares de vítimas, nas mandíbulas sanguinolentas. Em razão disso, inventavam-se
tormentos novos.
Verdugos inconscientes ideavam estranhos suplícios.
Senhoras cultas e meninas ingênuas eram desrespeitadas antes
que lhes decepassem a cabeça, anciães indefesos viam-se chicoteados até a morte.
Meninos apartados do reduto familiar eram vendidos a mercadores em trânsito, para
servirem de alimárias domésticas em províncias distantes, e nobres senhores tombavam
assassinados nas próprias vinhas.
Mais de vinte mil pessoas já haviam sido mortas.
Naquela noite, a que acima nos referimos, anunciou-se para o
dia seguinte a chegada de Lúcio Galo, famoso cabo de guerra, que desfrutava atenções
especiais do Imperador por se haver distinguido contra a usurpação do general Avídio
Cássio, e que se inclinava agora a merecido repouso.
Imaginaram-se, para logo, comemorações a caráter.
Por esse motivo, enquanto lá fora se acotovelavam
gladiadores e jograis, o patrício Álcio Plancus, que se dizia descendente do fundador da cidade,
presidia a reunião, a pedido do Propretor, programando os festejos.
- Além das saudações, diante dos carros que chegarão de
Viena – dizia, algo tocado pelo vinho abundante -, é preciso que o circo nos dê alguma cena
de exceção... O lutador Setímio poderia arregimentar os melhores homens; contudo, não
bastaria renovar o quadro de atletas...
- A equipe de dançarinas nunca esteve melhor – aventou Caio
Marcelino, antigo legionário da Bretanha que se enriquecera no saque.
- Sim, sim... – concordou Álcio – instruiremos Musônia para
que os bailados permaneçam à altura...
- Providenciaremos um encontro de auroques – lembrou Pérsio
Níger.
- Auroques! Auroques!... – clamou a turba em aprovação.
- Excelente
lembrança! – falou Plancus em voz mais alta – mas, em consideração ao visitante, é imperioso acrescentar alguma novidade que Roma
não conheça...
Um grito horrível nasceu da assembléia;
- Cristãos às feras! cristãos às feras!
Asserenado o vozerio, tornou o chefe do conselho:
- Isso não
constitui novidade! E há circunstâncias desfavoráveis. Os leões recém-chegados
da África estão preguiçosos... Sorriu com malícia e chasqueou:
- Claro que surpreenderam, nos últimos dias, tentações e
viandas que o própio Lúculo jamais encontrou no conforto de sua casa...
Depois das gargalhadas gerais, Álcio continuou, irônico:
- Ouvi, porém,
alguns companheiros, ainda hoje, e apresentaremos um plano que espero resulte certo. Poderíamos reunir, nesta noite,
aproximadamente mil crianças e mulheres cristãs, guardando-as nos cárceres... E, amanhã, coroando as
homenagens, ajuntá-las-emos na arena, molhada de resinas e devidamente cercada de farpas
embebidas em óleo, deixando apenas passagem estreita para a liberação das mais
fortes. Depois de mostradas festivamente em público, incendiaremos toda a área, deitando
sobre elas os velhos cavalos que já não sirvam aos nossos jogos... Realmente, as chamas e
as patas dos animais formarão muitos lances inéditos...
- Muito bem! Muito bem! – reuniu a multidão, de ponta a
ponta do átrio.
- Urge o tempo – gritou Plancus – e precisamos do concurso
de todos... Não possuímos guardas suficientes.
E erguendo ainda mais o tom de voz:
- Levante a mão direita quem esteja disposto a cooperar.
Centenas de circunstantes, incluindo mulheres robustas,
mostraram destra ao alto, aplaudindo em delírio.
Encorajado pelo entusiasmo geral, e desejando distribuir a
tarefa com todos os voluntários, o dirigente da noite enunciou, sarcástico e inflexível:
- Cada um de
nós traga um... Essas pragas jazem escondidas por toda a parte... Caçá-las e exterminá-las é o serviço da hora...
Durante a noite inteira, mais de mil pessoas, ávidas de
crueldade, vasculharam residências humildes e, no dia subsequente, ao Sol vivo da tarde, largas
filas de mulheres e criancinhas, em gritos e lágrimas, no fim de soberbo espetáculo,
encontraram a morte, queimadas nas chamas alteadas ao sopro do vento, ou despedaçadas pelos
cavalos em correria.
Quase dezoito séculos passaram sobre o tenebroso
acontecimento... Entretanto, a justiça da Lei, através da reencarnação, reaproximou todos os
responsáveis, que, em diversas posições de idade física, se reuniram de novo para dolorosa
expiação, a 17 de dezembro de 1961, na cidade brasileira de Niterói, em comovedora
tragédia num circo".
Como nos ensina o amado Mestre Jesus, "não devemos julgar para não sermos julgados, pois a cada um será dado conforme suas obras".
Como nos ensina o amado Mestre Jesus, "não devemos julgar para não sermos julgados, pois a cada um será dado conforme suas obras".

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