domingo, 7 de abril de 2013

SAUDADE...


Há alguns meses venho me dedicando à retrospecção de importantes acontecimentos por mim vivenciados na atual reencarnação ou experiência biológica.

Ao longo de todo o processo de resgate histórico tenho sido acompanhado por uma velha companheira - a saudade - malgrado em momento algum a tenha convidado para compartilhar das minhas memórias.

Sua presença constante, embora abstrata, motivou-me a aprofundar a sonda das investigações no intuito de melhor compreendê-la, de conhecer o mais realisticamente possível o seu significado.

Sob enfoque lendário, o termo saudade foi criado pelos antigos navegadores portugueses para definir a melancolia causada pela lembrança da terra natal, dos entes queridos.

As luzes etimológicas atribuem sua origem ao latim solitas, solitatis (solidão), cuja forma arcaica latina era soedade, soidade

Os lexicólogos, por sua vez, conferem ao substantivo feminino saudade o significado de "lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado"; "pesar, mágoa que essa privação causa". 

Lenda, etimologia e dicionaristas aquiescem, portanto, quanto à existência de um liame inquebrantável entre solidãosaudade

Far-se-á então possível, a partir desses insights, definir-se o que é saudade?

A máxima "omni definition periculosa est" (toda definição é perigosa), insculpida pelos antigos romanos, adverte-nos da gravidade do intento. 

Incursionando pelo campo poético-musical, deparei-me com o ardor lírico de Chocolate e Elano de Paula que, em 1950, compuseram Canção de Amor, o belo e melancólico samba-canção cuja interpretação primorosa imortalizou Elizeth Cardoso. Eis a letra:

"Saudade torrente de paixão
Emoção diferente
Que aniquila a vida da gente
Uma dor que eu não sei de onde vem
Deixaste meu coração vazio
Deixaste a saudade
Ao desprezares aquela amizade
Que nasceu ao chamar-me meu bem
Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de Amor, saudade!
Saudade".


Persiste, como se vê, o vínculo indissolúvel das duas irmãs siamesas solidãosaudade

Já inclinado a finalizar a tarefa a que me lancei, lembrei-me de um conto ancestral advindo da Grécia Antiga. 

Diz-nos ele que Sócrates, Platão, Aristóteles e outros discípulos estavam há várias horas reunidos na Ágora principal de Athenas buscando exatamente uma definição categórica para saudade. As numerosas formulações apresentadas pelos sábios, permeadas de beleza e rasgos filosóficos, tinham sido, todas elas, objeto de agudas críticas e insuperáveis divergências conceituais. 

Física e mentalmente exaustos, os filósofos gregos resolveram consultar a primeira criança que por ali passasse sobre o tema sob controvérsia. 

Eis que pouco tempo depois uma menina de aproximadamente sete anos adentra no espaço. Eufóricos,  os sábios lhe perguntam:

- Menina, o que entendeis por saudade?

E a menina, com a pureza e a ingenuidade que caracterizam as crianças, respondeu-lhes sem vacilações ou titubeios: 

- Saudade é a vontade de ver de novo! 

Será preciso dizer mais alguma coisa? Se o for, não será através deste apenas esforçado estudioso das problemáticas humanas! 

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