quarta-feira, 19 de dezembro de 2018


A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS

INTRODUÇÃO
As parábolas de Jesus entesouram ensinamentos de inestimável valia para o nosso desenvolvimento intelecto-moral, porquanto difundem conhecimentos psicoterapêuticos que beneficiam amplamente a todos que mergulham em suas fontes abençoadas de água-viva, como certo dia fez uma samaritana junto ao Poço de Jacó.
Contudo, para colhermos seus frutos precisamos entender, antes de tudo, que as parábolas são construções literárias simbólicas no ventre das quais dormitam máximas morais plenas de sabedoria, aguardando estímulos para despertarem e iluminarem nosso caminho.
Para facilitar a exegese do ensino moral de Jesus, utilizaremos como suporte os cânones da Psicologia Transpessoal e da renomada Série Psicológica de Joanna de Ângelis, cuja visão comum do homem integral — Alma, perispírito e corpo — auxilia-nos a interpretar os conceitos engastados no Evangelho de Jesus, e, por mérito, gozarmos dos benefícios defluentes do seu manancial inexaurível de luzes.

A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS
Mais conhecida entre nós como A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO, ela é narrada por Lucas no Capítulo 15, versículos 11 a 32, de sua obra evangélica, verbis:
—“E disse Jesus: — Um certo homem tinha dois filhos.
“E o mais moço deles disse ao pai: — Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence.
“E ele repartiu por eles a fazenda.
“E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente.
“E havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e ele começou a padecer necessidades.
“E foi e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos.
“E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
“E, caindo em si, ele disse: — Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!
“Levantar-me-ei, e irei ter como meu pai, e dir-lhe-ei: — Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.
“E, levantando-se, foi para seu pai e, quando ainda estava longe, seu pai o viu e, cheio de íntima compaixão, correu em sua direção e o abraçou.
“O filho então lhe disse:  — Pai, pequei contra o céu e perante ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho.
“Mas o pai disse aos seus servos: — Depressa, trazei a melhor roupa e vesti-o. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias em seus pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado.
“E começaram a festejar.
“Enquanto isso, o filho mais velho que estava no campo se aproximou da casa, ouviu a música e as danças. E chamando um dos servos perguntou-lhe o que estava acontecendo.
“Este lhe respondeu: — Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o bezerro cevado, porque o recebeu de volta são e salvo.
“O filho mais velho encheu-se de ira, e não quis entrar na casa.
“Então seu pai saiu e insistiu com ele. Mas ele respondeu ao seu pai:
— “Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos. Mas quando volta para casa esse teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, matas o bezerro cevado para ele!
"Disse-lhe o pai:  — Filho, tu sempre estás comigo; e todas as minhas coisas são tuas. 
"Mas era justo alegrarmo-nos e regozijarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, tinha se perdido e achou-se."
Esta parábola traz em seu âmago as mais candentes e profundas lições sobre os preceitos morais que devem presidir a conduta humana.
Lamentavelmente, sua interpretação de há muito vem sendo feita de forma intencionalmente distorcida, em indisfarçáveis e reiteradas tentativas de acomodar dogmas religiosos absurdos e insustentáveis. Com esse censurável propósito, aborda-se somente a história do filho pródigo.
Essa premeditada distorção temática faz com que a maioria das pessoas creia que para obter o perdão de Deus sobre os seus erros basta pura e simplesmente arrependerem-se de tê-los cometido. Muitos líderes religiosos disso se aproveitam, de forma ladina, para influenciar seus fiéis a demonstrarem seu arrependimento mediante doações pecuniárias que, de ordinário, recheiam seus bolsos ávidos e gananciosos.
Diante dessa triste realidade, interpretaremos as sublimes lições de Jesus de forma modularizada, versículo a versículo, com base na Psicologia Transpessoal e na consagrada Série Psicológica de Joanna de Ângelis, sempre sob as luzes dos nossos bondosos e pacientes Instrutores Espirituais.
A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS aborda a questão vital do autoencontro, isto é, do encontro da criatura mortal com sua Essência Divina (Alma), e, por natural expansão, com o Pai-Criador. 
EXEGESE DA PARÁBOLA, VERSÍCULO A VERSÍCULO
“E disse Jesus: — “Um certo homem tinha dois filhos.”
E o mais moço deles disse: — “Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence”.
Neste contexto metafórico um certo homem simboliza Deus; o filho mais moço, o ser inexperiente, pouco vivido, de reduzida capacidade de discernimento; e a parte da fazenda que ele reclama representa as dádivas da Vida que Deus concede aos seus filhos para que evoluam, cuja eficácia depende do uso que a elas seja dado pelo livre-arbítrio de cada um.
Em cada jornada, o corpo físico é uma “fazenda” que recebemos para administrar adequadamente. Além disso, somos usufrutuários do ar que respirarmos, da luz do sol que nos aquece, da água que sacia nossa sede, dos alimentos que matam nossa fome etc., de tudo, enfim, que necessitamos para evoluir durante a nova experiência reencarnatória.
“E ele repartiu por eles a fazenda.”
A justiça e a equanimidade divinas ficam bem claras neste versículo, pois apesar de somente o filho mais novo ter pedido a parte da fazenda que lhe cabia, o Pai a repartiu entre seus dois herdeiros necessários. O que Jesus está querendo dizer é que Deus é sempre justo e equânime.
Quando renascemos em situações precárias, tais como: a carência de afeto materno e/ou paterno; a falta de saúde; a indisponibilidade de bens materiais etc., é para aprendermos, pela dor, a valorizar os bens existenciais que detínhamos e desperdiçamos irresponsavelmente.
A carência de hoje é sempre consequencial. Assim, se alguma coisa falta em nossa vida não é porque Deus quer, como costumam dizer pessoas que não creem na reencarnação ou estão mal-intencionadas.
Com efeito, se nascemos em precárias condições é porque em algum momento da nossa vida espiritual abusamos dos bens da fazenda (símbolo de todos os bens divinos), usando-os de forma egoísta, ou subtraímos os haveres de outras pessoas e agora, como é de lei, aquilo que usamos mal ou tiramos dos outros retorna para nós sob a forma de carência. 
Por conseguinte, a diferença de recursos que existe entre as criaturas é, de modo geral, o resultado justo e meritório do que cada uma delas fez da parte da fazenda que recebeu do Pai.
“E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente.”
Com admirável habilidade expressional, Jesus metaforiza que o filho mais novo ajuntou tudo e partiu para terra longínqua, revelando, de tal modo, em linguagem figurada, que ele se afastou da Casa do Pai, isto é, abandonou seus ideais de espiritualidade e religiosidade, tendo em vista que a Casa do Pai representa a nossa Essência Divina, e estar em casa significa estar em comunhão conosco mesmos e com o Pai nosso que está nos céus.
Neste versículo, o Mestre Divino mais uma vez enfatiza a autonomia concedida pelo Criador aos Seus filhos amados para que exercitem livremente a faculdade do livre-arbítrio.
Notemos, com especial atenção, que o Pai não tenta, em momento algum, demover seu filho do desejo insano de partir para terra longínqua, afastando-se do seu convívio amoroso, embora sabendo de antemão que o filho caçula estava cometendo um grave erro.
Mais uma joia cintila no ventre desse tesouro parabólico: o egoísmo do filho ingrato e irresponsável que ajunta tudo e, sem se importar com as dores e sofrimentos que causaria ao seu genitor, parte para bem longe em busca dos pseudoprazeres da vida dissoluta, desperdiçando rapidamente todo o acervo hereditário.
O elevado valor desta lição está na verdade incontestável de que é o materialismo que nos distancia da nossa espiritualidade (nossa Alma) e, em concomitância, da nossa religiosidade (Deus).
Literalmente, a palavra egoísmo significa culto ao ego, ou seja, devoção à camada de ignorância que ainda permeia nosso Self (Alma), em virtude do exercício desamoroso do livre-arbítrio.
São os pensamentos, palavras e atitudes desamorosos, rebeldes e orgulhosos que nos lançam nos subterrâneos trevosos do desalento e da dor. E o que é bem pior: não raro, desperdiçamos encarnações inteiras vivendo por puro egoísmo, buscando somente a satisfação dos prazeres egoicos, sensuais e efêmeros, apenas para gozar a vida, tudo fazendo em favor do nosso insaciável bem-estar pessoal, mesmo que em detrimento dos outros, como se essa fosse a finalidade da nossa existência.
Atentemos que é o movimento de rebeldia que induz a criatura humana a se afastar da sua condição natural de aprendiz da Vida, ao lhe ofuscar o dever consciencial de evoluir e entrevar o sentimento de profunda gratidão a Deus pelas oportunidades infinitas de iluminação que lhe concede, incessante e infinitamente.
Quando o ser humano escolhe o atalho piçarrento da rebeldia, ao invés de caminhar pela estrada asfaltada da mansidão trilhada por Jesus, assume a obrigação indelegável de colher os frutos amargos e espinhosos produzidos pelo seus atos, dada a cogência e automaticidade da Lei de Causa e Efeito, também conhecida como Lei de Ação e Reação ou, ainda, como Lei do Retorno.
Por isso, quando o filho mais novo parte para uma terra longínqua para cultivar o materialismo, ajuntando tudo, de maneira egoísta, para viver dissolutamente, logo desperdiça todo a sua quota hereditária e acaba perdendo a saúde ao dilapidar o tesouro moral “que a traça e a ferrugem não consomem, nem os ladrões roubam” [Mateus, 6:19-21].
“E havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e ele começou a padecer necessidades.”
Aqui, Jesus aborda a questão relativa à responsabilidade inescusável que temos pelos nossos pensamentos, palavras e atitudes, cujos frutos saudáveis ou insalubres, macios ou espinhosos seremos obrigados a colher, demonstrando-nos, com nívea elegância didática, que quando nos afastamos do Amor Divino obstruímos o ingresso da energia vital que nos fortalece, e, inexoravelmente, findamos desidratados.
A grande fome não representa, portanto, a fome do pão de que carece o corpo biológico para sobreviver, mas a fome de amor do Espírito que se afastou da única Fonte provedora: Deus, o Pai-Criador!
Infelizmente, isso acontece com a maioria dos seres humanos que, iludidos pelos prazeres egoicos, esbanjam sua energia vital com futilidades, em prejuízo do prazer essencial proporcionado pelo exercício do amor incondicional sugerido e exemplificado por Jesus, debilitando-se energeticamente e provocando a eclosão de inúmeras doenças nos corpos perispiritual e físico.
Nos dias que correm um número elevado de pessoas astuciosas vem se valendo da posição de comando ou de influência que ocupam no orbe político-social para usurpar recursos públicos, devastar a natureza e cometer uma série de atos imorais, ilegais e indecorosos cuja futura colheita dar-se-á fatalmente na forma de degenerações mentais, transtornos psicóticos, constrições intelectuais etc.
Outro grupo, também numeroso, abusa dos recursos materiais de que dispõe sem levar em conta sua finitude, colhendo, mais tarde, os frutos amargos da estupidez representados pela carência de recursos essenciais, para que, pela dor, aprendam a valorizá-los.
Ao nos distanciarmos do Essencial para gozarmos dos prazeres supérfluos sugeridos pelo ego, desenergizamo-nos e sentimos uma grande fome, ou seja, a carência do Amor Divino.
O abuso de hoje é a fome de amanhã; se hoje abusamos da saúde do corpo físico, amanhã não mais a teremos; se abusamos dos recursos financeiros, deles sentiremos falta no futuro, e assim por diante. Nada mais justo, não acham?
Na parábola, a história é bem linear: o filho caçula parte para bem longe, desperdiça seus bens patrimoniais vivendo dissolutamente e entra em carência, uma coisa atrás da outra, tudo sucedendo numa única existência.
Na vida real, no entanto, as coisas não costumam acontecer dessa forma. É mais comum passarmos existências inteiras indo para terras longínquas, nas quais desperdiçamos as dádivas divinas e, exangues, padecemos necessidades.
“E foi e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos.”
Para bem assimilarmos os ensinamentos simbolizados por Jesus em suas parábolas terapêuticas, precisamos contextualizá-los. Neste versículo, por exemplo, há algo de muito sutil que somente pode ser compreendido se dirigirmos nossas lentes prospectivas para a época em que Jesus o formulou, a fim de nos inteirarmos da realidade cultural do povo que O ouviu.
Os hebreus não comem carne de porco, pois, para eles, o porco é um animal imundo, proibido por Moisés após a fuga do Egito. 
Realmente, Moisés proibiu seu povo de se alimentar com carne de porco, mas o fez porque naquela época a criação de porcos era feita de forma muito rudimentar, sem que fossem observados os mínimos requisitos de higiene, razão pela qual os porcos transmitiam muitas doenças. Ao instituir essa proibição, Moisés, como hábil legislador, atribui-lhe origem divina. 
"O que aconteceu com o filho mais novo?" Hebreu, ele foi para uma terra longínqua onde a população consumia normalmente carne de porco, e, privado de recursos, viu-se obrigado a desenvolver o mais abjeto de todos os trabalhos para o seu povo: apascentar porcos!
Percebamos como Jesus, com requintada maestria, simboliza o início da derrocada do ser ingrato na obrigação de fazer aquilo que lhe era mais repugnante: cuidar de porcos.
“E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.”
Aqui, o Mestre Divino nos alerta sobre a imensa carência a que fatalmente chegaremos se insistirmos no mau uso do livre-arbítrio.
Jesus se refere, simbolicamente, ao auge da carência: embora o filho mais novo estivesse realizando a mais abjeta das atividades para um hebreu, nem a comida dos porcos que apascentava lhe era oferecida.
Em sentido literal esse versículo não faz nenhum sentido, pois nenhum empregador deixa de alimentar seus operários, porquanto, enfraquecidos, eles não lhe renderiam o proveito econômico desejado.
A fome a que Jesus se refere não é, portanto, de alimentos materiais, mas a fome espiritual, a fome de amor. Ele usou o fome da carne como símbolo para exprimir que ninguém pode saciar a fome alheia: somente a própria pessoa faminta pode aplacá-la.
Reflitamos mais um pouco sobre isso.
Egoísta e egocêntrico, o filho mais moço abandonou a Casa do Pai sem esboçar nenhuma preocupação com as repercussões emocionais que sua partida inesperada causaria ao seu genitor, já de idade avançada.
Nesse segmento da parábola Jesus simboliza o comportamento das pessoas que, sob a impulsão do egoísmo e do orgulho, buscam tão-somente a satisfação de seus desejos materiais, como se fossem criaturas privilegiadas pelo Criador, sem ter a mínima preocupação com os males que estão causando aos seus semelhantes.
No Brasil dos dias atuais, é cada vez maior o número de pessoas que, aturdidas, questionam como é possível, por exemplo, que indivíduos eleitos pelo voto popular e/ou ocupantes de cargos públicos relevantes desviem bilhões de reais destinados à saúde, à educação, à segurança...
“Como podem agir dessa forma e ficar sorrindo à toa, escarnecendo daqueles que os elegeram e/ou guindaram para os postos de cumeada da Administração Pública, exatamente para fazer o contrário?” – indagam, enraivecidas e desesperançadas.
Obnubiladas pela revolta, chegam mesmo a questionar, de forma blasfêmica, como é que Deus permite o cometimento de tais infrações, esquecidas de que, dotados de livre-arbítrio, todos nós somos livres para semear o que quisermos, obrigando-nos, no entanto, à colheita dos frutos que germinarem, independentemente de sua quantidade e qualidade.
Jesus revela o mau uso do livre-arbítrio no comportamento inicial do filho mais novo. O Pai não lhe disse para não ir, nem tampouco o incentivou a fazê-lo. Nessa construção simbólica está dito que Deus sabe que tudo o que fizermos servir-nos-á de lição e, mera questão de tempo, levar-nos-á de volta aos Seus braços, pelo amor (provações) ou pela dor (expiações).
Assim, quando convivermos, como nos dias atuais, com políticos e gestores públicos que se locupletam de verbas destinadas à satisfação das necessidades básicas da população, sobretudo das classes menos favorecidas, vejamo-los como doentes morais cuja vida dissoluta acarretar-lhes-á graves problemas existenciais, “ex vi” do efeito bumerangue da Lei de Causa e Efeito, por isso mesmo também chamada de Lei do Retorno.
É possível até que eles passem existências inteiras bloqueando a consciência, ludibriando e escarnecendo do povo, crentes que são tão espertos que suas falcatruas jamais serão descobertas. Um ledo engano, pois tudo está sendo detalhadamente registrado no Livro de suas vidas, com caracteres inapagáveis.
Noutro polo estão legiões de pessoas sofrendo e morrendo à míngua nos corredores de hospitais superlotados; crianças e jovens adolescentes matriculados em escolas completamente desestruturadas; criaturas sendo assaltadas à luz do dia no interior de ônibus, em suas casas e nos mais diversos locais que frequentam..., tudo devido ao descaso com que seus governantes, representantes e gestores cuidam da coisa pública, protegidos pelo silêncio conivente do Poder Judiciário.
“Por que Deus não faz nada para ajudá-las?; Que mal elas fizeram para sofrer tanto?” – indagam muitas pessoas.
Dentre os atributos da Divindade cintila a soberana justiça e bondade, em virtude dos quais nenhuma injustiça ou maldade provém do Criador. As dores e os sofrimentos que experimentamos nada mais são do que a colheita dos frutos insalubres produzidos pelas más sementes que lançamos no solo universal em tempos pretéritos.
Nesse diapasão, as criaturas sofredoras que hoje nos compadecem fizeram mal a si mesmas, foram, em grande parte, políticos, administradores. magistrados e empresários corruptos que se refestelaram com o dinheiro público e que agora sofrem na Terra as mesmas carências que acarretaram aos seus irmãos de jornada.
Nada mais justo e equânime.
Por isso é que o filho pródigo experimenta o sofrimento acerbo resultante de suas más escolhas. Como ele se distanciou do amor e da pureza que havia na Casa do Pai, precisa expiar seus atos (“ação”), ou seja, extrair (“ex”) a pureza (“pia”) que jaz adormecida em seu imo.
O Universo é regido pela Lei do Amor. Quando nos distanciamos desse Amor, que é Deus (João, 4:8), fugindo para terras longínquas, deslocamo-nos do nosso eixo divino, enfraquecemo-nos, tornamo-nos carentes. Eis, em suma, a gênese das doenças físicas e mentais que nos acometem.
A expiação é, pois, o mecanismo acionado pela Vida para nos convidar ao amadurecimento psicológico, à reflexão profunda sobre os nossos equívocos atitudinais, para nos despertar sobre a necessidade imperiosa de convergir nossos recursos para a nossa reabilitação, conforme veremos nos próximos versículos.
“E, caindo em si...“
Refere-se Jesus, neste brevíssimo verseto, ao momento fatal em que o ser humano cai em si, isto é, toma consciência das ações desvirtuadas que praticou sob o domínio do desamor, da rebeldia e do orgulho.
Muitas pessoas pensam que a dor e o sofrimento são punições aplicadas por Deus aos infratores dos Seus Mandamentos. Não é isso que Jesus nos ensina na parábola em comento, nem em qualquer outro ensinamento moral.
Deus jamais pune seus filhos, pois o Amor não se aborrece com nada! O que acontece é que as Leis Divinas que regem o Universo são autoaplicáveis e, por isso, ninguém pode fugir delas, diferentemente das leis humanas que discriminam pobres e ricos, pessoas comuns e indivíduos poderosos.
Quando, por exemplo, nos afastamos da Lei Maior, que é a Lei do Amor, para gozarmos dos prazeres mundanos, o desamor que cultivamos produz dores e sofrimentos que nos convidam à reforma comportamental.
“A dor ensina a gemer” – apregoa, com irrepreensível exatidão filosófica, um conhecidíssimo ditado popular.
A dor é um excelente mecanismo da Vida, a serviço da própria Vida”filosofa a querida Mentora Joanna de Ângelis no livro Plenitude, pois induz o Espírito a cair em si ao sentir os dolorosos efeitos de suas atitudes egoicas.
A evolução acontece pelo amor e para o amor. Por isso, é que somente transmutando o desamor em amor, o egoísmo em altruísmo, a rebeldia em mansidão e o orgulho em humildade conquistaremos o direito de desfrutar da pura e eterna felicidade angelical.
Na parábola paradigmática, o filho gozador cai em si e percebe que suas carências psicofísicas decorriam do abandono da Casa do Pai, recordando-se, então, com olhos marejados de lágrimas refrescantes, que no lar paterno jamais lhe faltara nada. Graças à dor, ele descobre que seus padecimentos não provêm da conjuntura externa, mas, sim, dos seus próprios desvirtuamentos.
Meditando profundamente sobre esse ponto nevrálgico, inferimos o quanto somos injustos com o Criador quando O responsabilizamos pela falta da saúde, de alimentos, de haveres materiais, de uma família bem estruturada ou seja lá do quer for, impelidos pela teimosia atávica de não assumirmos a responsabilidade pelas nossos erros, pelas nossas infrações às Leis Naturais que regem o Universo.
Cair em si significa, portanto, tomar consciência dos erros cometidos e aceitar que as carências de hoje são o resultado dos abusos de ontem, porque se Deus criou o Universo por amor e para o amor, não executa nenhuma ação desamorosa, desleal e/ou injusta.
A fé racional nos mostra que a Fonte do Amor, que é Deus, não privilegia alguns dos seus filhos em detrimento de outros; se uns têm corpos saudáveis, famílias equilibradas e riquezas patrimoniais, e outros padecem de graves enfermidades, vivem em ambientes domésticos desarmonizados ou em pobreza absoluta, isso se deve ao modo como usaram o livre-arbítrio.
É de elevado alcance termos sempre presente que a nossa destinação não é o sofrimento, mas o amor, haja vista que muitas pessoas que têm visão deturpada do processo reencarnacionista costumam dizer que nós estamos sofrendo porque estamos “queimando o carma”, quer dizer, pagando pelas coisas erradas que fizemos no passado.
A etimologia desmascara essa alogia ao nos revelar que a palavra “carma” significa simplesmente “ação”. Logo, se hoje estamos sofrendo é porque em passado recente ou remoto, desta ou doutras vidas, exercemos o nosso livre-arbítrio em desacordo com as Leis de Deus. Entretanto, não reencarnamos para sofrer inertes e apáticos, porém para desenvolver a autoconsciência e lançar no solo universal as sementes transmutadoras do amor, do bem, do bom e do belo.
“Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!”
Temos aqui o momento em que, espiritualmente faminto, o filho pródigo se lembra da fartura que havia na Casa do Pai, que ele abandonara voluntariamente para curtir os pseudoprazeres hedonistas.
As Leis Divinas estão inscritas em nossa consciência, conforme nos revela a questão 621 de O Livro dos Espíritos.
Quando as desprezamos para trilhar as vicinais tentadoras da vida em busca dos prazeres egoicos – conforme fez o filho pródigo –, mais cedo ou mais tarde elas pontificarão e reocuparão seus espaços, pois não nos é possível sufocar, de forma duradoura, a nossa Essência Amorosa.  
Morrendo de fome, o filho gozador sente saudade da fartura de pão que havia no lar abandonado. Com brilhantismo poético, Jesus utiliza o pão como símbolo do amor e a Casa do Pai como ícone da Essência Divina que somos.
Estar em casa significa, portanto, estar em comunhão consigo e com Deus. Quando isso acontece temos abundância de pão, somos ricos de amor; quando não, sentimo-nos famintos do pão-amor, nutriente essencial que ninguém pode nos dar, porquanto sua única fonte provedora é o autoamor.  
“Levantar-me-ei, e irei ter como meu pai...”
Ao chegar ao fundo do poço, o jovem perdulário cai em si e emprega seus resíduos energéticos na construção do nobre propósito de levantar-se, sacudir a poeira e retornar à casa paterna.
Ao idealizar seu arrependimento ele exercita o primeiro ato de autoamor, desde que abandonara seu lar, condição indispensável à deflagração do processo de sintonia com Deus, a Fonte do Poder, do Amor e da Vida. Ele ainda não praticou o ato restaurador, mas suas reflexões conscienciais o motivam a colocar em prática seu nobre ideal saneador.
Vale relembrar, por oportuno, que o processo de mentalização das ideias ocorre no plano das potencialidades infinitas do Eu Divino que somos. Em assim sendo, todos nós, sem nenhuma exceção, dispomos, em estado latente, de todos os recursos necessários para a superação dos problemas e a retirada das pedras que surgirem em nosso caminho.
Não obstante, somente quando a nossa consciência desperta é que percebemos a posição em que nos encontramos e definimos para onde queremos ir.
Por isso, é fundamental idealizarmos o que fazer e planejarmos as futuras ações, de sorte a privilegiar as coisas do Espírito Imortal criado por Deus e conquistar, por mérito, o direito de ascender para o mundo angelical.
[...] “Dir-lhe-ei: — Pai, pequei contra o céu e perante ti.”
Na Idade Média, a palavra pecado foi maliciosamente deturpada para conferir suporte à crença dogmática de que o pecado é algo abominável que precisa ser eliminado da nossa vida, com muita penitência, doações generosas e sofrimento. Nessa matriz medieval, o pecado insculpe a ideia de culpa na consciência do infrator, convencendo-o de que deve ser punido para execrar sua falta.
A concepção cristã não abona nada disso.
A palavra pecado tem suas raízes etimológicas assentadas no vocábulo hebraico “hamartia”, que significa tão-somente “errar o alvo”. E é assim que Jesus se refere ao pecado em todo o Seu Evangelho.  
Na parábola em estudo, o filho mais moço errou o alvo ao deixar a estrada do amor e tomar o atalho franqueado pelas portas largas das tentações egoicas.
Pecar significa, portanto, errar o alvo, equivocar-se quando ao caminho a ser seguido, como sucedeu com o filho pródigo que agora deseja se reabilitar.
E é exatamente isso que Deus deseja de nós: nossa reabilitação!
Criados simples e ignorantes, é natural que erremos como aprendizes da Vida, pois todo aperfeiçoamento se dá pelo processo de erros e acertos. E foi exatamente por isso que o Pai não impediu o filho de partir para terras distantes em busca de gozos e prazeres libertinos.
Reflitamos, agora, sobre o significado da oração “pequei contra o céu e perante ti”. Inicialmente, precisamos entender que, neste contexto, a palavra céu representa a consciência da criatura humana, onde está gravada a Lei de Deus, conforme atesta a questão 621 de O Livro dos Espíritos:
— “Onde está escrita a lei de Deus?”
—“Na Consciência”.
Assim, quando agimos em desacordo com as Leis Divinas maculamos nossa consciência, afastamo-nos do Eu Divino que somos e nos distanciamos de Deus. Um péssimo cenário.   
Não é ao Pai que desonramos ao desrespeitar Seus mandamentos, pois, soberanamente justo e bom, Deus não se perturba com as nossas faltas. Prejudicamos a nós mesmos ao instaurar graves conflitos psicológicos entre o indivíduo eterno que somos e a pessoa finita que estamos.
“Já não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.”
Embora sinceramente arrependido, o jovem estroina sente-se indigno de ser recebido como filho, por ter pecado. Idealiza, então, assumir a posição de um simples trabalhador da gleba rural onde nascera.
É deslumbrante constatar, mais uma vez, a eficácia expressional de Jesus, que desta feita põe em destaque a virtude essencial da humildade de coração.
Como todo aprendiz da Vida, o mancebo gozador somente poderá reparar suas faltas transmutando o desamor, a rebeldia e o orgulho egoicos em amor incondicional, mansidão fraterna e humildade beneficente.
Seguindo fielmente essas diretrizes cristãs a Doutrina Espírita nos convida à reforma íntima para melhor, mediante o cultivo do autoamor, para que produzamos o maior número possível de sementes amorosas e as semeemos em benefício dos nossos irmãos carentes, de forma indistinta e incondicional.
Na parábola, o filho pródigo pensa humildemente em solicitar trabalho ao Pai, visando sua reabilitação. Na vida real não é diferente: precisamos trabalhar em nossa intimidade para nos reabilitarmos perante a nossa própria consciência, pois embora o arrependimento pelos erros cometidos constitua o primeiro movimento renovador, não basta para realizar o nobre tentame; imprescindível se faz que sempre aprendamos com os erros e procuremos repará-los.
Assim, o autoperdão não anula, por si só, os erros cometidos. Isso não existe na Lei Divina, pois embora seja o mecanismo precioso que Deus nos oferece para facilitar a reabilitação da nossa consciência, tumultuada pelos conflitos psicológicos causados pelo exercício equivocado do livre-arbítrio, para que haja a verdadeira reabilitação são também necessárias a expiação e a reparação dos males praticados.
O filho pródigo, após desperdiçar os bens herdados do seu genitor, arrepende-se e decide reparar seus desatinos laborando como trabalhador braçal na fazenda do Pai, tendo em mira a reconstituição do patrimônio por ele desperdiçado em libações alcoólicas, orgias e bacanais nababescos.
Açoitado de forma inclemente pela dor, ele resolve passar pela porta estreita do processo de autorreabilitação, objetivando devolver à Vida tudo o que dela havia subtraído.
“E, levantando-se, foi para seu pai...”.
Agora sim, ele dá efetivamente o primeiro passo para concretizar seu ideal renovador.
A propósito: é muito comum as pessoas idealizarem grandes e edificantes autotransformações para se tornarem melhores, impelidas pelos  apelos da própria consciência. Contudo, para infelicidade de si mesmas, a preguiça moral não permite que suas metas e objetivos nobilitantes transponham as fronteiras da idealização e adentrem no mundo real.
Tendo em vista que o pensamento sempre precede a ação, o processo de autoconhecimento é deflagrado a partir de uma idealização em que o ser pensante define o caminho biopsicossocial que pretende percorrer. Não obstante, a simples formulação da ideia não basta para concretizar o ideal; o esforço diuturno é imprescindível.
Jesus nos alerta que enquanto permanecermos caídos não daremos um passo sequer em direção a Casa do PaiPortanto, é imperioso que nos levantemos e lutemos com toda vontade e entusiasmo para realizar as metas e objetivos colimados para a nossa vida, plenamente conscientes dos ditames da Lei de Ação e Reação, ou seja, de que se não agirmos, o céu não nos ajudará.
Nesse sentido, o primeiro passo grandioso é sermos verdadeiros conosco mesmos, deletando toda e qualquer cogitação que fique à espera de um milagre que jamais acontecerá, pois toda reação decorre de uma ação a ela correspondente.
[...] e, quando ainda estava longe, seu pai o viu e, cheio de íntima compaixão, correu em sua direção, abraçou-o e beijou.”  
Neste versículo, Jesus leciona que Deus sempre nos trata com amor e íntima compaixão, mesmo quando Dele nos afastamos para curtir os pseudoprazeres mundanos. Soberanamente bom, jamais nos pune, afasta ou castiga.
Na língua portuguesa, a palavra compaixão é sinônimo de dó, pena, piedade, comiseração. Na Psicologia Espírita o mencionado vocábulo possui envergadura conceitual diferenciada, como veremos logo a seguir.
Compaixão é uma virtude proativa. Tem um significado positivo, pois nos propele à compreensão e aceitação das pessoas que erram, sem que, todavia, aceitemos seus erros, mas os compreendamos como frutos da ignorância, de desvios atitudinais que precisam ser corrigidos, e não punidos.
Quando cultivamos sentimentos de dó, piedade ou comiseração por nós mesmos ou pelos outros, sentindo-nos ou sentindo-os “coitadinhos”, envergamos as máscaras da auto e da alopiedade engendradas pelo pseudoamor.
Notemos que Jesus afirma que o filho pródigo levantou-se, isto é, tomou uma atitude proativa, pois poderia ter ficado caído, agrilhoado pela autopiedade. E ao levantar-se ele praticou um ato de autocompaixão — e não de autopiedade —, compatível com sua destinação angelical.
Não cabe, portanto, dentro dessa concepção amorosa, as palavras atemorizantes de falsos profetas de que Deus envia para o inferno aqueles que transgridem seus mandamentos. Até o Papa atual repudia esse absurdo!
Devemos também observar as diferenças profundas que existem nos ensinamentos professados sobre o Pai-Criador por Moisés, no Pentateuco, e por Jesus, no Novo Testamento, procurando sempre contextualizá-las.
Moisés difundiu a visão de um Deus cruel e vingativo (“olho por olho, dente por dente”), para conter, pelo temor, os desmandos e a libertinagem do povo ignorante recém-liberado da escravidão do Egito. Jesus, mais de um milênio depois, insculpiu o conceito de um Deus amoroso e compassivo para uma humanidade bem mais evoluída do que a contemporânea de Moisés. .
A compaixão é filha dileta do amor, pois é a virtude que nos faz entender que o irmão que errou não é indigno, mesmo quando o ato por ele praticado esteja prenhe de indignidades. 

Deus jamais se ofende com os nossos erros, pois, Onisciente, sabe que o nosso potencial amoroso nos conduzirá fatalmente aos Seus braços. Não nos pune, mas gravou Suas leis em nossa consciência para que nos purifiquem pelo amor (provações) ou pela dor (expiações).
O grande problema é que, em face do erro, adotamos uma postura de indignidade e permanecemos caídos, punindo-nos por termos errado, jungidos a concepções religiosas deturpadas sobre o conceito do pecado.
É deveras impressionante que em pleno século XXI ainda acreditemos em "pecados mortais", que ainda creiamos que nossos desvios de conduta nos alijam para sempre da Casa do Pai e nos lançam no fogo do inferno, onde arderemos por todo o sempre, como um churrasco que nunca fica no ponto preferido pelo diabo...
É essencial meditarmos sobre os ensinamentos morais de Jesus: Deus sempre acolhe o filho sincero que busca sua reabilitação, por mais deploráveis que sejam as ações por ele praticadas.

NOTA: Sugerimos aos queridos irmãos e irmãs que, à luz dos ensinamentos morais anteriormente veiculados, reflitam serenamente sobre como vêm se comportando em face das denúncias de assédio sexual feitas por centenas de mulheres contra o médium espiritualista  - e não espírita - João de Deus.  

E o filho então lhe disse: — “Pai, pequei contra o céu e perante ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho.”
Dá-se aqui, de forma concreta, o exercício efetivo da humildade, antes apenas idealizada. Apesar de o Pai tê-lo recebido com muito amor e compaixão, o filho arrependido ainda se sente indigno.
Nesta parte da parábola, com insuperáveis habilidade e elegância de estilo, Jesus enfoca a consciência maculada pelos registros dolosos e culposos que documentam as ações errôneas que todos nós praticamos ao adentrarmos pela porta larga da perdição no mundo dos prazeres mundanos e vestirmos os trapos da indignidade, dos quais só nós mesmos podemos nos desvencilhar.
Entretanto, mesmo esfarrapados e malcheirosos, Deus nunca nos vê como filhos indignos. O Amor que É não deixa!
Com efeito, logo na primeira página de A Gênese, Allan Kardec apregoa que “para Deus, o passado e o futuro são o presente”, afirmação que nos permite inferir que Deus sempre nos vê como Arcanjos, conforme testifica a Questão 540 de O Livro dos Espíritos, cuja leitura recomendamos aos caros leitores.
Quando Deus cria o princípio inteligente que animará um átomo, Ele, soberanamente bom, já enxerga esse princípio inteligente — que durante milênios estagiará nos reinos mineral, vegetal, animal e hominal — como um Arcanjo. Ou seja: Deus nos vê COMO SOMOS E NÃO COMO ESTAMOS!
Como agravante derivado da ignorância de estarmos escravizados a concepções religiosas deturpadas sobre o significado do pecado, adotamos postura de indignidade e ficamos caídos quando erramos, punindo-nos pelas infrações perpetradas contra as Leis Naturais.
Como Deus sempre trata seus filhos com dignidade, o processo de reabilitação depende única e exclusivamente da própria criatura que infringiu a Legislação Celeste. 
O que Deus sempre faz em prol do filho sinceramente arrependido é fecundar sua mente com o Fluxo do Seu Amor, para que ele fortaleça cada vez mais seus níveos propósitos evolutivos. 
Cuida-se, sem dúvida, de um processo longo e árduo, porquanto reconstruir é sempre muito mais difícil do que destruir. É relativamente fácil adentrar pela porta larga no mundo do desamor, mas é muito difícil trilhar o caminho de volta para o amor, pois, para tanto, necessitamos fazer inúmeros exercícios de autoamor para purificar nossa consciência, que é o Divino em nós.
É por essa razão que o filho pródigo, agora arrependido, deseja ser um dos “trabalhadores do Pai”.
Subsumindo esse fragmento da parábola na ambiência psicológica, desvendamos que o sentimento de indignidade é um CONFLITO NECESSÁRIO que nos convida à reflexão profunda e a prática subsequente de exercícios reabilitantes.
Esse ensinamento de Jesus, como tantos e tantos outros, tem relevante conteúdo psicológico. Revela-nos, de forma cristalina, que da mesma forma que Deus sempre nos acolhe, precisamos também nos acolhermos para transmutar as nódoas desamorosas, rebeldes e orgulhosas que enodoam e mancham nossa consciência, em fluxos amorosos, brandos e humildes de coração.  
Voltar para casa significa exatamente isso: reformarmo-nos intimamente para melhor; exercitarmos saudavelmente o nosso livre-arbítrio.
Todas as vezes que matamos nossos ideais amorosos semeamos ervas daninhas cuja futura e obrigatória colheita causar-nos-á a morte psicoespiritual, que, na verdade, é um convite ao renascimento, à reforma íntima para melhor aconselhada pelo Espiritismo.
Noutras palavras: matamos temporariamente o bem dentro de nós mesmos ingerindo o veneno do desamor, sofrendo, em consequência, as dores que nos reensinam a viver, a nos arrependermos, o primeiro passo efetivo da reabilitação, conforme o Codificador assinala no Capítulo VII, da 1.ª Parte, de “O Céu e o Inferno”:
— “O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito, destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.”
Quando nos afastamos da Casa do Pai, ou seja, da Essência Divina que somos, precisamos eliminar o lixo psíquico que ensombreia nossa Alma.
Foi o que aconteceu com o filho mais moço. Na primeira fase, mergulhou fundo nas fossas impuras dos gozos e prazeres hedonistas; na segunda, exaurido e movido pelo arrependimento, retornou ao lar para reparar suas faltas através do mecanismo educativo da provação.
Nesta etapa do nosso trabalho abrimos um parêntese para sugerir aos queridos leitores que estudem atenciosamente as Questões 114 a 127 de O Livro dos Espíritos, porquanto abrangem o uso equivocado do livre-arbítrio e o respectivo processo de reabilitação.
“Mas o pai disse aos seus servos: Depressa, trazei a melhor roupa e vesti-o. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias em seus pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado. E começaram a festejar.”
Jesus nos lembra que por mais errados que estejamos jamais perdemos a condição maior de filhos de Deus. Pai amoroso e compassivo, Ele sempre nos recebe com alegria festiva quando, sinceramente arrependidos, reavivamos o amor que somos.
Quando nos ausentamos da “Casa do Pai”, símbolo da nossa Alma, ficamos perdidos nos labirintos confusos da ignorância, enfraquecemos e morremos psicologicamente; quando regressamos, revivemos, restauramos o fluxo energético Criador-criatura, retornamos aos braços ao Amor em busca da pura e eterna felicidade a que estamos predestinados como filhos de Deus que somos, herdeiros necessários do Universo.
Daí a alegria efusiva do Pai ao receber de volta seu filho amado,  
Decodificando a linguagem figurada, inferimos que voltar para Casa significa reavivar nossa espiritualidade para, logo a seguir, despertar nossa religiosidade e deixar o Amor Divino restaurar nossa Saúde Espiritual.
Soberanamente justo e bom, Deus sempre nos oferece todos os recursos necessários à nossa evolução, mesmo quando já os desperdiçamos várias vezes. No entanto, para usufruí-los precisamos demonstrar humildade e arrependimento sinceros, o que fatalmente sucederá em futuro próximo ou remoto, a depender do esforço que desenvolvamos nesse sentido.
 Estudemos, a partir de agora, a postura do filho mais velho, ignorada pela maioria dos doutrinadores evangélicos.
Ao que tudo leva a crer, ele é um bom filho, cumpre seus deveres e sempre esteve ligado ao Pai por laços amorosos indissolúveis. Será mesmo?
“Enquanto isso, o filho mais velho que estava no campo se aproximou da casa, ouviu a música e as danças.”
Neste trecho, Jesus esclarece, com sutileza, qual era a postura real do primogênito, ao deixar bem claro que em momento algum ele entra na Casa do Pai: ele estava no campo, aproximou-se da Casa atraído pela música, contemplou as danças, mas permaneceu do lado de fora, nas imediações do lar da família.
Ora, como na linguagem figurada estar na Casa do Pai simboliza estar em comunhão com a própria Essência Divina e, por extensão, com Deus, Jesus mostra que o primogênito parecia estar em sintonia com o Pai, mas não estava. Com elevado descortino, ele diferencia PARECER e SER!
A postura do filho mais velho é tipicamente pseudoamorosa: ele está bem perto da Casa do Pai, mas não entra nela. Em linguagem psicológica: ele se movimenta em torno do AMOR utilizando o disfarce do PSEUDOAMOR, com o qual tenta esconder seu DESAMOR.
Demonstrando extraordinário conhecimento dos escaninhos da mente, Jesus nos adverte sobre a importância de conhecermos e vigiarmos as máscaras do ego, porquanto tais disfarces são produtos de longa e refinada elaboração egoica. Exatamente por isso Jesus utiliza simbolicamente a figura do filho mais velho para nos prevenir sobre essas armadilhas egoicas.
E chamando um dos servos perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe respondeu: — “Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o bezerro cevado, porque o recebeu de volta são e salvo.”
Conforme a metáfora elaborada com esmero artesanal por Jesus, o filho mais velho permanece do lado de fora da Casa e procura saber o que estava acontecendo através de um dos servos da fazenda, evitando entrar em contato com o Pai.
Eufórico, o servo lhe diz que seu irmão voltara são e salvo.
“O filho mais velho encheu-se de ira, e não quis entrar na casa. Então seu pai saiu e insistiu com ele.”
Neste versículo nosso Mestre, Guia e Modelo Divino patenteia o desagrado do primogênito com a recepção festiva dada ao seu irmão mais jovem. Ao invés de também festejar seu retorno, ele se revolta e deixa bem claro seu distanciamento do Pai, apesar dele estar tão perto fisicamente.
O Pai, todavia, em grandioso gesto de amor, mansidão e humildade, vai ao seu encontro e insiste para que ele entre em Casa e participe dos festejos da família em virtude da volta do seu irmão.
A metáfora é primorosa: Deus sempre nos convida para que entremos e/ou permaneçamos em comunhão com Ele e com o nosso próximo, independentemente de reciprocidade.
Observemos, com rigor analítico, que a indignidade do filho mais velho é bem diferente da mácula do filho mais novo, pois enquanto este, ao se sentir indigno, arrependeu-se e busca sua dignificação, aquele nada faz pois está enceguecido pelo orgulho e pela revolta.
“Mas ele respondeu ao seu pai: — “Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir os teus mandamentos, e nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos.”
Este verseto veicula a queda das máscaras do ego de há muito utilizadas pelo filho mais velho. Mas para que entendamos isso, precisamos apreender o sentido dado por Jesus à palavra mandamento.
Conforme depreendemos da exegese do Capítulo 22, versículos 35 a 40, do Evangelho de Mateus, a seguir reproduzido. Jesus a ela atribui o significado de “exercício das Leis criadas por Deus para conduzir o Universo e todas as Suas criaturas”, nada tendo a ver, portanto, com a ideia de ordem imperativa, de algo que se deve fazer compulsoriamente, sob pena de sofrer sanções. Afinal, não se pode admitir a existência do amor forçado, divorciado de si mesmo.
Eis o ensinamento de Jesus:
“E um deles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar, dizendo: Mestre qual é o grande mandamento da lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento, Este é o primeiro mandamento, E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.”
Neste diálogo, Jesus enfatiza a soberania da Lei do Amor — síntese  da Legislação Divina — onde a palavra mandamento representa apenas uma regra de conduta a ser exercitada pela criatura ao longo do seu processo evolutivo, no qual, inclusive, disporá de todo o tempo que for necessário para concretizar gradativa e suavemente esse elevado mister.
É por essa razão que o Evangelho nos convida ao exercício consciente do amor e não a amarmos por obrigação.
Jesus, como nos ensina a Benfeitora Joanna de Ângelis, é o “psicoterapeuta excelente, o grande médico das almas.”
E, como tal, sabe que seres simples e ignorantes não se transformam por decreto. Por isso, jamais sugeriria a prática coercitiva do amor.
No versículo sob destaque, o filho mais velho mente de forma cínica ao dizer que apesar de servir fielmente ao Pai jamais dele recebeu um único cabrito para festejar com seus amigos, pois, como já vimos, os bens da fazenda foram repartidos igualmente entre ele e seu irmão.
Com notável perspicácia, Jesus simboliza no primogênito as pessoas que vivem dizendo que Deus não lhes dá nada, enquanto a outros dá de tudo, questionamento sobre o qual nos deteremos mais um pouco para consagrar a justiça e a magnanimidade divinas, a partir de reflexões conscienciais sobre alguns exemplos colhidos no cotidiano terrestre.
De ordinário, somente nos lembramos de que o nosso corpo físico, o ar que respiramos, o sol que nos aquece, a água que nos dessedenta, as plantas e animais que nos alimentam são dádivas divinas quando ficamos doentes, não conseguimos respirar direito, sentimos frio, estamos com sede, passamos fome...
Salvo raras e louváveis exceções, quando estamos usufruindo de maneira regular desses recursos esquecemo-nos de que são joias amorosas emprestadas por Deus para que evoluamos, e, pior ainda, quando alguma delas nos falta, em razão do uso abusivo que dela fizemos, reclamamos, blasfemamos, a ponto de dizermos que nem um só cabrito ganhamos do Pai-Criador.
Jesus deixa bem claro neste versículo a cobiça e a chantagem do primogênito que, usando as máscaras egoicas da martirização e da vitimização, intitula-se servo fiel e diligente — e não filho amoroso — que nunca descumpriu nenhum dos mandamentos do Pai e, por isso, merece remuneração compatível com sua conduta ilibada.
Muitas pessoas agem de forma semelhante à do filho mais velho quando se veem diante das dificuldades comuns e rotineiras do mundo de expiações e de provas em que se autoaprisionaram, e indagam de nariz arrebitado e dedo em riste:
— “Que mal eu fiz a Deus para merecer uma vida tão infeliz?”
Aquelas que pensam assim precisam entender que não podemos fazer mal a Deus, pois Ele não se afeta com os nossos disparates e inconsequências emocionais. Nós é que, ao lhes darmos curso, infelicitamos nossa vida.
Assumir a posição de vítima ou de mártir, além de não resolver problema algum, agrava nosso destino.
Ao se colocar como servo da gleba e exigir remuneração pelo seu trabalho, o filho mais velho demonstra insofismável dissenção de interesses, razão pela qual se recusa a entrar na Casa do Pai. Isso fica ainda mais claro quando se refere ao irmão como “esse teu filho”.
A obrigatoriedade de servir a Deus é uma farsa criada por religiões ditas cristãs, a partir da deturpação de lições oferecidas por Jesus em Seu Evangelho, com o fito de barganhar a conquista de espaços celestes para seus fiéis.
Com base nessa crença intencionalmente deformada, muitas pessoas entregam regularmente uma porcentagem de tudo que ganham para os líderes de suas seitas, convictas de que estão adquirindo o seu lugar no céu; outras ficam boazinhas pouco antes de morrer e doam parte de seus haveres para os pobres; outras pagam para que rezem e peçam a Deus que elas tenham uma boa morte, e por aí vai o propinoduto...
“Mas quando volta para casa esse teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, matas o bezerro cevado para ele!”
A inveja, o ciúme, o despeito e a cobiça do filho mais velho vêm à tona, deixando à mostra a ganância que sempre alimentara de ser o único herdeiro dos bens de sua família, de há muito mascarada pelo pseudoamor.
Nessa figuração, Jesus retrata as pessoas que creem que vão para um céu de beatitude eterna por cumprirem suas obrigações religiosas, enquanto os pecadores devem ir para o inferno e ser banidos para sempre do convívio de Deus.
O primogênito enverga a máscara egoica do puritanismo quando desconhece o irmão e diz: este teu filho que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes”.
Vale lembrar que o puritanismo é um mecanismo de projeção. A pessoa puritana condena na outra exatamente o que gostaria de ser e/ou fazer, mas que reprime para se sair bem na foto social. A pessoa censurada é, na realidade, o espelho onde os seus desejos estão refletidos. Por isso, tenta quebrá-la.
Na parábola, o irmão estroina fizera tudo quanto o primogênito desejava fazer, mas reprimia seus desejos para preservar a imagem de bom moço. Daí a sua indignação.
Em todo processo de mascaramento está implícito o orgulho disfarçado. Ou seja: quando alardeamos que não somos orgulhosos é porque o somos sob o disfarce da pseudo-humildade; quando negamos o desamor, mascaramo-lo com o pseudoamor, e assim por diante.
Nesta parte da história contada pelo nosso Mestre, revela-se-nos que o filho mais velho sofre muito por invejar as deferências e privilégios dispensados ao irmão perdulário que regressara de terra longínqua, pois também queria ser tratado da mesma forma.
Como agravante, com a visão turbada pela ganância invejosa ele não percebe que a causa do sofrimento que o infelicita está em si mesmo, como já percebeu seu irmão após o despertar da consciência, atribuindo sua desdita ao Pai e ao irmão irresponsável.
Eis, em todos os seus matizes, o fenômeno psicológico da projeção, por cujo intermédio projetamos nos outros as causas dos nossos sofrimentos.
A mensagem transmitida por Jesus nesse segmento da parábola é de clareza diamantina, pois nos mostra, sem quaisquer subterfúgios, a nocividade das energias negativas encapsuladas nesse disfarce hedonista, que, a um só tempo, nos distancia da nossa própria essência e do Criador.  
A pessoa que usa esse disfarce crê-se fiel cumpridora dos seus deveres; acredita-se melhor do que é, quando, na realidade, somente assim se considera por força da máscara instalada pelo pseudoamor: PARECE SER O QUE NÃO É!
Para se fazer entender, Jesus elegeu a figura do irmão mais velho como ícone das máscaras produzidas por elaborações mentais egoicas e estapafúrdias que exigem longo e estafante trabalho psíquico para serem totalmente removidas.
Por essa razão, o filho mais moço e ainda inexperiente, lançou-se sem peias nem medidas ao cultivo dos prazeres egoicos, enquanto o filho mais velho e experiente ficou aparentando dedicação sincera ao Pai.
O impacto das máscaras do ego na estrutura psíquica do indivíduo é devastador, superando, com larga vantagem, as dores causadas pela vivência das negatividades, pois aquele que se identifica com elas sofre de imediato as consequências do seu desamor, despertando-se, pelo alarme da dor, para a necessidade de regressar o mais cedo possível à Casa do Pai, ao passo que o ser mascarado se deixa engolfar em zonas de conforto psicológico, animado pelos elogios e tapinhas nas costas que recebe no meio social onde aparenta ser o que não é.
Porém, como é óbvio, seus disfarces, por mais belos que sejam, não mais terão utilidade quando acabar o carnaval psicológico.
Queridos irmãos, queridas irmãs,
O Reino dos Céus que tanto buscamos exteriormente está dentro de nós mesmos, aguardando o despertar da nossa consciência, ou seja, o autoencontro da pessoa finita que estamos com o indivíduo imortal que somos.
Dar-se-á, então, o florescer do amor verdadeiro que nos premiará com a pura e eterna felicidade angelical a que estamos predestinados. É por essa razão que devemos nos despir das máscaras ilusórias que ludibriam nossa visão e retardam nosso retorno a Casa do Pai.
O amor somente vicejará quando acolhermos nosso desamor com muito carinho, transmutando-o fraternalmente. Foi isso que aconteceu com o filho mais novo na segunda fase de sua vida. Ele se aceitou como indigno e, ato contínuo, buscou a reabilitação através do trabalho do bem, dignificando-se. Seu irmão mais velho, ao contrário, projetou a sua indignidade nos outros, obscurecido pelas teias sombrias do puritanismo.
Jesus volta a se referir às máscaras do ego na passagem enigmática relatada por Lucas (8,18):
“Vede, pois, como ouvis, porque a qualquer que tiver lhe será dado, e a qualquer que não tiver, até o que parece ter lhe será tirado".
Os disfarces psicológicos devem ser liberados lentamente da nossa personalidade, aceitando-se as negatividades que eles simbolizam para, depois, transmutá-las em virtudes através do amor.
É óbvio que quanto mais cedo entendermos e fizermos isso mais depressa alcançaremos as cumeadas da angelitude.
"Disse-lhe o pai: — “Filho, tu sempre estás comigo; e todas as minhas coisas são tuas.”
Jesus deixa claro que o Pai sempre esteve ao lado do filho, embora este não o sentisse, não percebesse o tesouro que estava ao seu alcance.
Esse verseto abriga duas questões de alta relevância psíquica.
1 - Será que Deus deixa de estar com algum de seus filhos um instante sequer?
— Não, respondem os Anjos do Senhor, pois como Deus é amor, ele sempre está com seus filhos, sejam eles bons ou maus, gratos ou mal-agradecidos.
2 - Isso significa que todos nós sempre estamos em comunhão com Deus?
— Não, dizem os mesmos porta-vozes, pois apesar de Deus nunca se afastar de nós, podemos nos afastar Dele pelo uso equivocado do livre-arbítrio. A condição para estar em comunhão com Deus é estar em Casa, numa só palavra: amar!
Compreende-se, assim, porque o processo de reabilitação do filho mais velho é muito mais demorado e complexo do que o de seu irmão caçula, pois este já sabe o que verdadeiramente é, ao passo que aquele ainda privilegia o PARECER, em detrimento do SER.
Ao declarar “e todas as minhas coisas são tuas” o genitor sob rejeição enuncia a realidade maior do Universo: Deus é uma Grande Luz, a Energia do Amor que criou e cria todas as coisas. É o Pai que está nos céus, ou seja, na consciência de cada uma das suas criaturas, para as quais criou tudo o que existe no Universo.
É lamentável que, em sendo herdeiros do Universo, preocupemo-nos com ninharias, como o cabrito metaforizado na parábola.
Mas era justo alegrarmo-nos e regozijarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, tinha se perdido e achou-se."
O epílogo da parábola não poderia ser mais rico e proveitoso para insculpir a certeza de que Deus é Pai justo e misericordioso.
Com efeito, mesmo quando o primogênito permanece insensível aos seus apelos para que se alegre e regozije com a revivescência do irmão mais novo, o Pai não o repudia ou abandona, pois sabe que mais dia menos dia ele também adentrará em Casa.
Com essa linguagem figurada Jesus desperta nossa atenção para a doce e animadora realidade de que o Pai-Criador quer que todos nós, seus filhos amados, revivamos, reencontremos o amor e desfrutemos da pura e eterna felicidade a que nos predestinou no momento da criação.
Para tanto, é essencial compreendermos essa divina e maravilhosa lição, a fim de nos libertamos, o mais rapidamente possível, das máscaras e algemas excruciantes do desamor, da rebeldia e do orgulho e, por mérito, entrarmos na Casa do Pai.
Observemos com especial atenção que enquanto o filho caçula não se sente mais digno de ser tratado como filho por ter cometido indignidades, mas volta para Casa e se oferece como trabalhador para se recuperar dignamente, seu irmão se sente um servo injustiçado e exige recompensa por tudo que fez pelo Pai.
É por isso que a Psicologia Espírita doutrina que a recuperação das pessoas que têm perfil semelhante ao do filho mais velho é muito mais complexa, pois elas precisam se desvencilharem das máscaras da servidão e do pseudoamor para, somente depois, sentirem os malefícios das energias indignas que trazem dentro de si e empregarem todo o esforço possível em prol da sua reabilitação como criaturas divinas.

RESUMO DA PARÁBOLA

Psicoterapeuta por excelência, Jesus resumiu na parábola dos dois filhos toda a nossa trajetória evolutiva, demonstrando, com impecável habilidade simbólica, que possuímos caracteres que nos identificam tanto com o filho mais novo, quanto com o filho mais velho, a depender da fase evolucional em que nos encontremos.
Enquanto conferimos prioridade às coisas da matéria, em detrimento das coisas do Espírito — característica primordial dos habitantes da Terra —, assemelhamo-nos ao filho pródigo que desperdiçou os bens havidos do Pai e entrou em carência.
Nossa identidade com o filho mais velho se dá quando nos valemos das máscaras do ego para parecer ser o que verdadeiramente não somos.
Depreende-se, portanto, que na parábola Jesus está se referindo às diferentes faces da nossa personalidade.
Diante de seus lúcidos ensinamentos, é-nos dado inferir que podemos passar existências inteiras como o filho gozador e inconsequente; outras tantas sofrendo as consequências desse desvirtuamento; várias reencarnações arrependidos, buscando a recuperação; e pior ainda: passar várias existências como servos aparentemente dedicados.
Dispondo da faculdade do livre-arbítrio que nos permite escolher nossos caminhos, precisamos compreender que somos herdeiros de nós mesmos e autores do nosso destino.
Vigilância e Oração são os remédios de que precisamos.

ARQUÉTIPOS EXPOSTOS NA PARÁBOLA

Concluída a análise pormenorizada da parábola, estudemos os três modelos psicológicos (arquétipos) revelados por Jesus, muito bem trabalhados e expostos pelo médium Alírio de Cerqueira Filho.
Arquétipo do filho gozador - Simboliza todos os seres humanos que utilizam o livre-arbítrio na prática do desamor em terras longínquas, prejudicando a si mesmos e aos outros em busca dos prazeres egoicos, malbaratando os recursos emprestados por Deus para que evoluam, tornando-se, por isso, carentes e sofrendo as inevitáveis consequências dos seus desvios morais.
Sempre que enveredamos pela estrada esburacada do desamor geramos um CONFLITO NECESSÁRIO, pois praticar o desamor macula nossa consciência — o divino em nós, alimentado pelo amor.
Arquétipo do filho arrependido, buscando reabilitação Retrata a segunda fase da vida do filho perdulário, quando ele se arrepende, “cai em si” e volta para a ”Casa do Pai”, representando, em linguagem figurada, todos os indivíduos que despertam sob o chicote da dor, tomam consciência do mal que praticaram, arrependem-se e resolvem retornar à seara do amor.
É a fase de superação do CONFLITO NECESSÁRIO pelo trabalho do bem, atitude que colima a saúde existencial. Mesmo depois de estarmos doentes podemos tomar consciência da causa da doença e retornarmos ao caminho do bem.
Arquétipo do filho aparentemente dedicado – Representa os Seres que desenvolvem o pseudoamor para aparentar uma dedicação que de fato não possuem, tentando, com isso, enganar ao “Pai” e aos outros. Na realidade, porém, isso gera apenas o autoengano, afastando-os mais ainda da comunhão que somente o verdadeiro amor proporciona.
Em assim agindo, intensificam a doença espiritual, porquanto jogam mais lenha numa fogueira de chamas altas e crepitantes, tornando muito mais difícil o debelar do incêndio moral a que deram causa.
Bons estudos e ótimas reflexões

             Que Deus nos dê um ETERNO E VENTUROSO NATAL!


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