A terra respirava o perfume agradável das azaléias em flor e a onomatopeia
da natureza cantava um hino de louvor à vida.
O sol fechava seu leque de plumas douradas no poente e aquele homem
sentado na escadaria do templo olhava a natureza festiva do Vale do Seridó.
Passa por ali uma jovem mulher, bela, os cabelos caindo sobre os ombros,
portando algumas joias caras, vestida à moda de babilônia, e vendo aquele homem bonito ela se
enterneceu, acercou-se dele e disse-lhe:
- Nazareno, eu sei que tu és nazareno pelos teus cabelos, pela tua barba; e
sei que és viajante e acabas de chegar porque os teus pés ainda estão marcados pela
urze do caminho e a tua testa está com fios de cabelo empapados de suor.
Ele então olhou para ela.
- Nazareno, eu sou vendedora de ilusões. Eu vendo perfumes, vendo
carícias, sou muito rica, os homens pagam verdadeiras fortunas para ficarem ao
meu lado. Hoje é o dia do meu aniversário e eu já recusei um sacerdote,
um príncipe da induméia e um legionário. Porque hoje sou eu quem vai
escolher o parceiro para dormir comigo. E eu encontro a ti e quero te convidar
para que vás a minha casa, porque hoje é a minha festa. Tu irás?
- Jesus olhou para ela e lhe disse: Hoje eu não posso.
- Oh! Nazareno, eu não fui clara. Eu não vou te cobrar nada. As minhas
burras estão arrebentando de joias, meus cofres repletas de ouro, não te cobrarei nada. Eu
somente quero te convidar- para que compareças a minha casa e nela passe a noite como
meu hóspede especial. Tu irás?
- Jesus a olhou ternamente e ao som maravilhoso da natureza em crepúsculo
disse-lhe: Mas hoje eu não posso.
- Oh! Nazareno, deixa-me dizer-te uma coisa: os homens disputam as minhas
carícias e eu as vendo a altos preços. A ti eu não pedirei nada. Vem comigo a
minha casa. Eu sequer te pedirei qualquer coisa. Eu colocarei uma escrava da
Núbia, nua, para bailar diante de ti. Lavarei os teus pés em uma bacia de prata
e os enxugarei com os meus próprios cabelos, e não te pedirei nada. Vem.
- Ele se levantou e sua bela figura apaixonou mais ainda aquela mulher
perdida. E ele disse: perdoa-me, hoje eu não posso. eu assim procedo porque te amo. Eu vejo nos
teus olhos uma estranha chama e assim procedo porque te amo.
- Oh! Nazareno, pelo menos venhas a
minha casa de meretriz e senta-te no meu triclínio para que eu te olhe da minha
porta e possa dizer depois que um dia o homem que era bom como a felicidade,
nobre como a labareda de fogo e puro como a espada nua passou pela minha casa
de mulher perdida e não me tocou.
- Hoje eu não posso. Mas um dia que não está longe de chegar eu atenderei
o teu apelo e irei a tua casa.
- Eu sou uma mulher caprichosa e quero que vás hoje mesmo a minha casa.
- Hoje eu não posso.
A mulher saiu blasfemando e desapareceu.
Dois anos depois, Jesus estava nas cercanias de Jerusalém ensinando à
multidão, quando dele se aproximou uma mulher de idade e lhe falou alguma
coisa ao ouvido, apontou para uma gruta e perguntou-lhe: tu irás?
- Sim, eu irei contigo.
Então a mulher o pegou pela mão e o conduziu até a gruta, apontando para
o seu interior.
Jesus adentrou na gruta escura que exalava odores insuportáveis de carnes pútridas. Alongou os braços e tomou a direção de uma criatura que gemia e chorava dolorosa e copiosamente.
Seus dedos penetraram nos cabelos úmidos de pus.
Seus dedos penetraram nos cabelos úmidos de pus.
Uma voz roufenha, brotando de uma cabeça disforme, postada sobre um corpo
totalmente dilacerado, se fez então ouvir:
- Que queres de mim? Foge. Eu tenho lepra. Se tu vieste comprar perfume,
foge, deixa-me morrer. Não tenho mais nada para vender. E se vieste por piedade,
deixa-me morrer, é tarde demais. Tenho lepra e aqueles que te virem sair daqui
irão perseguir-te de forma implacável.
- E Jesus lhe disse: eu não posso ir embora. Um dia tu me chamaste para a tua festa de
aniversário e eu te disse que não podia ir, mas lhe garanti que um dia eu viria.
Então aquela mulher recuou, limpou os olhos em chagas e lhe disse com inexcedível emoção:
- Oh! Nazareno belo, és tu? Porque demoraste tanto? Eu te esperei dois
anos. Desde o dia em que te conheci, eu que não tinha paz perdi também a alegria de
viver. Toda noite eu colocava na janela uma lâmpada acesa para que iluminasse a
noite e tu pudesses chegar a minha casa. Mas tu não vieste. Agora é tarde. Sou
toda podridão e não tenho nada para te dar.
- Mas eu te prometi. Eu te disse que um dia eu te atenderia.
Jesus ergueu então a mulher nos braços, estreitou-a de encontro ao tórax e
saiu.
Quando saíram, ela cobriu o rosto com vergonha das feridas causadas pela
lepra. Jesus, segurando-a com braços fortes, retirou-lhe as mãos do rosto e
lembrou-se da frase que lhe havia dito em Jerusalém.
Olhou para os olhos em prantos e disse-lhe sorrindo:
- Não te perturbes. Eu te amo. Eu agora vejo nos teus olhos uma estranha
chama e assim procedo porque te amo. Morre em paz. Se teu corpo não serve para
nada, dá-me tua alma. Eu sou o bom pastor e aquele que me entregar a alma,
mesmo morrendo, entrará na vida.
A mulher recolheu-se calmamente e faleceu nos braços de Jesus”.
Feliz Natal de 2012!!!

Maravilha! Feliz Natal para você também!
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