Ao regressar do Rio de Janeiro, em 1957, tive a grata surpresa de reencontrar a terra que me serviu de abrigo, desde a mais tenra idade, imersa em bucólica atmosfera artístico-cultural, em que a boa música brilhava com ofuscante intensidade.
Envolvidos por essa inebriante e inspiradora epiderme citadina, pequenos grupos musicais, apelidados de seresteiros, reuniam-se costumeiramente nos finais de semana e, após ligeiros ensaios, percorriam ruas, becos, travessas e avenidas itabaianenses premiando seus habitantes com canções consagradas do quilate de Chão de Estrelas, Canção de Amor, Rosa e tantas outras, interpretadas por vozes naturalmente afinadas e acompanhadas por violões, clarinete, cavaquinho e pandeiro de artistas genuínos.
Como havia aprendido a tocar cavaquinho em plagas cariocas, meu pai, Elísio Araújo, e seu irmão, tio Filadelfo, eram seresteiros renomados em Sergipe, aquele como cantor e este como violonista, logo me inseri em um grupo que, além das figuras já citadas, contava em suas hostes com a participação de "Zé de Mídio" (violão) e "Pedro Funileiro" (clarinete).
Lembro-me, com inexprimível saudade, que em várias ocasiões fui "convidado" a tomar um cálice de Cinzano para que não não adormecesse e privasse os ouvintes do acompanhamento central e dos solos intermediários do meu cavaquinho, já que eu tinha então apenas 11 (onze) anos idade.
Momentos tão inesquecíveis que ainda hoje, 56 (cinquenta e seis) anos depois, sua lembrança umedece meus olhos cansados e me impelem na direção do braço sempre disponível do meu violão, de cujas cordas extraio notas rememorativas de tão doces e puras lembranças.

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