Nos anos 60, do século passado, eu morava na casa dos meus pais, Elísio e Cecília Araújo, situada à Praça Fausto Cardoso, tendo como vizinhos Tia Alina, irmã de meu pai, no lado voltado para a Matriz, e Dona Zefa e Seu Toinho, no outro.
Costumeiramente e sobretudo após a missa domingueira das nove horas, Marilene Lobo abria o janelão da sala da frente de sua casa e, ao piano, brindava-nos com execuções primorosas de músicas clássicas, românticas, populares e de qualquer outro estilo que estivesse fazendo sucesso nas emissoras radiofônicas.
Pouco a pouco, mas de forma contínua e ascendente, a música foi exercendo sua invencível força atrativa, imantando um conjunto de pessoas ao redor da renomada pianista serrana.
Os primeiros a serem atraídos foram os próprios irmãos de Marilene: Rosângela, enriquecendo os solos de piano com o som complementar e harmonioso do seu acordeão e Djalma, percussionista nato, tamborilando nas laterais de uma poltrona improvisada como bateria.
Integrei-me ao pequeno grupo logo a seguir, contribuindo com solos, pequenos arranjos e acordes do meu violão genuinamente seresteiro, mas que já incursionava também pelo universo do yê yê yê, ícone musical dos anos 60.
E lá vieram, depois de mim: Fernando Pimental (bateria); Aírton (requinta, um instrumento de sopro da família dos clarinetes); Nivaldo de Joãozinho Vermelhinho (percussão); Mendonça (trombone) e Geraldo Alagoano (crooner), não necessariamente nessa ordem.
Animados, os componentes do grupo decidiram fundar o Conjunto Dreher - denominação reveladora da predileção etílica de alguns..., adquirindo, para tanto, os instrumentos necessários (bateria, guitarra, sax alto).
Fundado, o Conjunto Dreher fez grande e merecido sucesso pois, sem falsa modéstia, era muito bom.
À medida que os contratos foram se tornando mais constantes, o grupo passou a contratar músicos avulsos em Frei Paulo e Laranjeiras, basicamente, aumentando ainda mais sua fama.
As razões que determinaram a dissolução do conjunto são plenamente compatíveis com os motivos inspiradores de sua denominação.
Contratados por Acrísio da Farmácia para abrilhantar a festa da padroeira de Nossa Senhora da Glória, os músicos efetivos e pontuais do conjunto deslocaram-se com bastante antecedência para a Capital do Sertão, nela chegando ainda na parte da manhã do sábado em que iriam tocar no baile de gala do clube local.
Fernando (que Deus o tenha) lembrou-se então que aquele, exatamente aquele, era o dia de seu aniversário natalício, convidando-nos para comemorarmos a efeméride no bar principal da cidade. E assim foi feito, com imprudente e exagerada ingestão de bebidas alcoólicas.
À noite, na hora do baile, com poucas e honrosas exceções, os músicos estavam irremediavelmente embriagados.
O pistonista, um excelente músico contratado em Laranjeiras, ao tentar extrair uma nota mais longa e aguda da música Cerejeira Rosa, vomitou dentro do próprio piston.
Airton, ao ver seu companheiro expelir os dejetos, também o fez na boca do saxofone que empunhava.
Geraldo Alagoano, nosso crooner, chamado para preencher a lacuna, verbalizando a canção pioneira, não conseguiu balbuciar, quanto menos cantar, senão "a cerejeira não é rosa mais puffffffff".
Um desastre inenarrável, cujo desfecho se deu no meio da viagem de volta, quando paramos para um lanche e, por unanimidade, concluímos que a mácula da irresponsabilidade jamais seria eliminada do conceito do Conjunto Dreher, que, por via de consequência, precisava ser extinto. E o foi, naquela mesma hora e data.
Hoje, dezenas de anos depois, reflito maduramente e vejo que o vocábulo Dreher tanto inspirou os membros do grupo musical a fundar um conjunto, quanto os manteve animados até um determinado estágio, para, a final, destruí-los musicalmente.
Assim mesmo faz o conhaque cujo nome foi tomado por empréstimo pelo conjunto e, por extensão, todas as bebidas alcoólicas: inspiram, animam, viciam, intoxicam e destroem!
Uma bela lição, creio eu.

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